Em resumo
O ceratocone deforma a córnea e não atinge a retina nem o nervo óptico, por isso raramente causa cegueira. O risco é perder nitidez num olho, sobretudo em quem começa a doença jovem, tem a córnea mais curva ou demora a ser diagnosticado. Acompanhamento com tomografia e crosslinking, quando há progressão, reduzem esse risco.
Neste artigo
Resposta rápida: O ceratocone raramente leva à cegueira: ele deforma a córnea e não atinge a retina nem o nervo óptico. O risco real é perder muita nitidez num olho, o que lentes especiais e, se preciso, o transplante costumam recuperar. No estudo americano CLEK, que acompanhou 1.209 pacientes, 77,9% deles enxergavam 20/40 ou melhor nos dois olhos com a melhor correção[1].
Ceratocone pode deixar cego?
Raramente, porque o ceratocone atinge a córnea e poupa a retina e o nervo óptico. Ele afina e encurva a córnea, que vai tomando a forma de um cone; a luz entra desviada e a imagem fica borrada, distorcida, às vezes duplicada. A retina e o nervo óptico, que transformam a luz em visão, seguem saudáveis, e por isso mesmo nos casos mais avançados a pessoa continua a perceber luz.
O que a doença pode causar é perda grande de nitidez, em geral mais num olho do que no outro, porque o ceratocone atinge os dois olhos de forma desigual[7]. Quando a córnea fica muito irregular ou ganha uma cicatriz no centro, os óculos já não corrigem, e a visão útil passa a depender de lente de contato especial ou de transplante. Para entender a doença desde o início, leia o guia completo do ceratocone.
Baixa visão e cegueira legal: qual a diferença?
A definição brasileira está no Decreto 3.298/1999, art. 4º, III, com a redação do Decreto 5.296/2004. Cegueira é acuidade visual igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica. Baixa visão é acuidade entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, também com a melhor correção[2]. Para quem tem ceratocone, dois detalhes da regra pesam muito: ela olha para o melhor olho, e mede a visão corrigida, não a visão sem óculos. No ceratocone, a melhor correção costuma ser uma lente de contato rígida ou escleral[7].
| Categoria | Acuidade no melhor olho, com a melhor correção | Equivalente aproximado na tabela de letras |
|---|---|---|
| Fora das categorias de deficiência visual | acima de 0,3 | melhor que cerca de 20/66 |
| Baixa visão | entre 0,3 e 0,05 | de cerca de 20/66 a 20/400 |
| Cegueira | 0,05 ou menos | 20/400 ou pior |
O decreto também considera deficiência visual o campo de visão muito reduzido, quando a soma do campo dos dois olhos é de 60 graus ou menos[2].
- 1Fora das categorias de deficiência visual pela acuidade: acima de 0,3.
- 2Baixa visão: de 0,3 a 0,05 (de cerca de 20/66 a 20/400).
- 3Cegueira: 0,05 ou menos (20/400 ou pior).
- 4Estudo CLEK: 77,9% dos pacientes enxergavam 20/40 (0,5) ou melhor nos dois olhos, com a melhor correção.
Os graus da doença e o que fazer em cada fase estão na página sobre ceratocone avançado.
Quais as chances de ficar cego com ceratocone?
Não há um número confiável. A pesquisa feita para este artigo não achou estudo populacional que tenha medido quantas pessoas com ceratocone chegam à cegueira legal, e por isso o texto não dá uma porcentagem. O que existe são grandes estudos de acompanhamento.
O CLEK acompanhou 1.209 pessoas com ceratocone em 16 centros americanos. Na entrada, 95% tinham curvatura de 45 dioptrias ou mais, e os autores consideraram a maior parte da amostra com doença leve a moderada; 77,9% enxergavam 20/40 ou melhor nos dois olhos com a melhor correção, e 65% usavam lente rígida[1]. Em 7 anos, a perda média foi de cerca de 2 letras na tabela de alto contraste. Uma parte piorou bem mais: 19% perderam 10 letras ou mais, o equivalente a duas linhas, em pelo menos um olho[3].
Esses números vêm de uma época em que não havia como frear a doença. As seções abaixo mostram o que aumenta o risco de perder visão num olho e o que hoje reduz esse risco.
Ceratocone é grave?
Pode ser, quando avança, e a idade em que a doença começa e o momento do diagnóstico pesam muito. No CLEK, 12% dos 1.065 pacientes que ainda não tinham sido operados fizeram transplante em pelo menos um olho em 8 anos. O transplante foi mais comum nos olhos de quem tinha 40 anos ou menos (15%), nos olhos com curvatura acima de 52 dioptrias (28%), com visão pior que 20/40 (33%) ou com cicatriz na córnea (24%)[8].
Uma metanálise de 11.529 olhos sem tratamento mostrou o mesmo padrão: quanto mais jovem a pessoa e mais curva a córnea, mais rápido o avanço. Os autores recomendam acompanhamento mais próximo e indicação mais precoce de crosslinking abaixo de 17 anos e com curvatura máxima acima de 55 dioptrias[4]. Se a sua dúvida é se existe cura, veja ceratocone tem cura?
O que acontece se não tratar o ceratocone?
Depende de cada caso. Em geral, o ceratocone aparece na adolescência ou no começo da vida adulta e avança mais até os 30 e poucos anos[7]; depois tende a desacelerar, mas pode continuar. Em parte das pessoas o avanço é lento; em outras, sobretudo quando começa cedo, a córnea continua a afinar e a encurvar. Sem acompanhamento, pode acontecer o seguinte:
- o grau e o astigmatismo mudam com frequência, e os óculos novos deixam de dar visão boa;
- a lente de contato rígida ou escleral passa a ser a única forma de enxergar bem;
- surge cicatriz na córnea: no CLEK, 20% dos pacientes desenvolveram cicatriz em 8 anos[3];
- o transplante vira a melhor saída para recuperar a visão de um olho[8];
- em poucos casos, ocorre a hidropsia aguda, descrita a seguir.
O que é hidropsia no ceratocone e o que fazer?
Na hidropsia, uma ruptura da membrana de Descemet, uma das camadas de trás da córnea, deixa entrar o líquido do olho, e a córnea incha e fica esbranquiçada de um dia para o outro[9]. A visão daquele olho cai de repente, e pode haver desconforto, lacrimejamento e sensibilidade à luz. Se isso acontecer, procure um oftalmologista no mesmo dia e não coce o olho.
É uma complicação incomum. No Reino Unido, um levantamento nacional estimou pelo menos 1,43 caso por ano para cada 1.000 pessoas com ceratocone[10]. Uma revisão de autores da Unifesp encontrou hidropsia em 2,6% a 7,5% das pessoas com ceratocone nas séries publicadas, com risco maior em quem coça os olhos, tem alergia ocular ou síndrome de Down, é mais jovem ou tem a córnea mais curva[11].
O inchaço costuma regredir em cerca de 3 meses, mas muitas vezes deixa uma cicatriz que atrapalha a visão[9]. No estudo britânico, 6 meses depois do episódio, 20,3% dos pacientes já tinham indicação de transplante[10].
No atendimento, o médico trata o desconforto e, em alguns casos, indica procedimentos que encurtam o tempo de inchaço[9].
- 1Epitélio, a camada de células da superfície.
- 2Estroma, a camada mais grossa, feita de fibras de colágeno.
- 3Membrana de Descemet e endotélio. A Descemet é uma das camadas de trás, logo à frente do endotélio, a última camada.
- 4Rompimento da Descemet na região do cone; as bordas se enrolam.
- 5O líquido do olho entra na córnea pela abertura.
- 6Córnea inchada e opaca: o estroma engrossa e fica esbranquiçado.
Dá para recuperar a nitidez perdida?
Na maioria dos casos, sim, com a correção certa. O crosslinking segura a doença onde ela está, e quem devolve a nitidez é a óptica: lente de contato especial e, quando ela não basta, o transplante. Para conhecer as opções, veja o guia das lentes para ceratocone.
A lente escleral se apoia na parte branca do olho e forma, sobre a córnea irregular, uma superfície lisa de líquido. Num estudo com 157 olhos com ceratocone, a visão média com os melhores óculos era de cerca de 20/63 e passou para perto de 20/25 com a lente. A lente, porém, não freia a doença: 14,6% dos olhos perderam visão ao longo do estudo, todos por progressão do ceratocone[12]. Numa clínica belga, de 51 olhos com curvatura de 70 dioptrias ou mais, que iriam para transplante, 40 seguiam usando a escleral depois de cerca de 30 meses[13]. Mais detalhes em lente escleral: o que é e para que serve.
Quando há cicatriz no centro da córnea, o transplante devolve visão útil a muitos pacientes. Numa série americana acompanhada em média por 13,8 anos (até 30 anos), 73% dos olhos transplantados por ceratocone enxergavam 20/40 ou melhor com óculos; o enxerto continuava funcionando em 85% aos 25 anos, e o ceratocone voltou em 11,7% dos olhos nesse prazo[14]. O artigo sobre transplante de córnea traz mais detalhes sobre a cirurgia.
Na rede, a adaptação de lente rígida, híbrida e escleral é feita nas cinco unidades, em geral pela Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, com lentes de prova em todas elas. O transplante, quando indicado, é feito no MIRA Hospital Oftalmológico, o hospital da rede, que faz todas as modalidades de transplante de córnea, inclusive o DALK e o penetrante.
O que faz o ceratocone avançar mais depressa?
Os fatores mais bem documentados são começar a doença jovem e ter a córnea mais curva no diagnóstico: numa metanálise de 11.529 olhos sem tratamento, esses pacientes pioraram mais[4].
Ter a doença na adolescência
Em crianças e adolescentes, o ceratocone avança mais rápido. Numa coorte de 9 a 19 anos, 88% dos olhos pioraram, e os autores propuseram fazer o crosslinking logo após o diagnóstico, sem esperar a progressão ser documentada[5]. Na rede, em crianças, o crosslinking costuma ser indicado já no diagnóstico.
Coçar os olhos
Coçar os olhos está ligado ao ceratocone: numa metanálise de seis estudos, quem coçava os olhos tinha 6,46 vezes mais chance de ter a doença[15]. Esses estudos medem a chance de ter ceratocone, não a velocidade da piora, e não provam sozinhos que coçar causa a doença; mesmo assim, a orientação na prática é a mesma: não coce. Se a coceira vem de alergia, ela tem tratamento com colírio indicado pelo oftalmologista. O tema está em coçar os olhos e ceratocone.
Quais erros atrasam o diagnóstico do ceratocone?
Na experiência da rede, achar normal trocar de óculos toda hora, não passar por um médico oftalmologista e deixar o exame para depois atrasam o diagnóstico e, com ele, o tratamento.
Achar normal trocar de óculos toda hora
Grau e astigmatismo que mudam a cada consulta, e óculos novos que não deixam a visão boa, são sinais de alerta. A receita mede o grau; a topografia e a tomografia medem a forma da córnea. Quem troca de óculos com frequência deve passar por um oftalmologista que examine a córnea.
A topografia de córnea é feita nas cinco unidades da rede, pelos dois olhos: R$ 110 à vista na unidade, R$ 140 no cartão ou R$ 77 no Pix pela marcação no site (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação). Fique 48 horas sem lente de contato, de qualquer tipo, antes do exame. Veja a página do exame de topografia.
Deixar o diagnóstico para depois
O crosslinking no protocolo padrão pede córnea com pelo menos 400 micrômetros de espessura depois da retirada do epitélio, para proteger as células da camada mais interna[16], [17]. Quem descobre o ceratocone tarde, com a córnea já muito fina, pode perder essa opção ou precisar de protocolos adaptados[17].
Por que o diagnóstico cedo muda o prognóstico?
Porque hoje existe tratamento para frear a doença, e no protocolo padrão ele depende de a córnea ainda ter espessura suficiente[16]. No ensaio KERALINK, com adolescentes de 10 a 16 anos com ceratocone em progressão, a doença avançou em 7% dos olhos tratados com crosslinking e em 43% dos olhos só acompanhados, em 18 meses[6]. Na Holanda, depois que o crosslinking se espalhou pelo país, os transplantes por ceratocone em pessoas com menos de 50 anos caíram cerca de 25%[18].
O acompanhamento também importa depois do diagnóstico. Num estudo da Nova Zelândia, 39,6% dos olhos pioraram enquanto o paciente esperava o crosslinking, num intervalo médio de 153 dias, cerca de 5 meses[19]. Por isso, na rede, quem tem ceratocone refaz a tomografia de córnea a cada 4 meses. Quando a tomografia mostra progressão, o crosslinking é indicado. A orientação do seu médico prevalece, e o intervalo pode mudar conforme a idade e o exame.
A tomografia de córnea (Pentacam, nome do aparelho) é feita no MIRA, só no particular: R$ 260 à vista, R$ 363 no cartão em até 10 vezes ou R$ 220 no Pix pela marcação no site (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação). O preparo é o mesmo da topografia: 48 horas sem lente de contato. Você recebe as imagens no mesmo dia, e o exame fica disponível para baixar a qualquer momento na plataforma de resultados de exames. Saiba mais na página da tomografia de córnea ou no artigo tomografia de córnea (Pentacam). Sobre o tratamento, leia crosslinking: como é, recuperação e preço.
- 1Diagnóstico do ceratocone.
- 2Tomografia de controle, em geral a cada 4 meses.
- 3Estável: segue o controle.
- 4Piorou (seta tracejada): a piora documentada leva ao tratamento.
- 5Crosslinking no MIRA, o hospital próprio da rede.
- 6Em crianças, o crosslinking costuma ser indicado já no diagnóstico.
Quando procurar atendimento no mesmo dia
Quem tem ceratocone deve procurar um oftalmologista sem esperar a consulta de rotina se:
- a visão de um olho cair de repente;
- o olho ficar branco ou leitoso, como na hidropsia;
- houver dor forte, vermelhidão ou secreção, principalmente em quem usa lente de contato;
- a lente de contato que funcionava passar a incomodar muito ou não dar mais visão.
E se a visão de um olho ficar muito baixa?
Mesmo sem cegueira legal, a perda grande de visão num olho tem reflexo nos direitos. A Lei 14.126/2021 classifica a visão monocular como deficiência visual para todos os efeitos legais[20]. O que isso significa na prática está em visão monocular: causas, laudo e direitos e em direitos de quem tem ceratocone.
O Instituto do Ceratocone da rede reúne exames, tratamentos e valores. A consulta particular custa R$ 180 à vista ou no Pix e R$ 200 no cartão (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação), e pode ser marcada em agendar consulta.
Referências
- Zadnik K, Barr JT, Edrington TB, Everett DF, Jameson M, McMahon TT, et al. Baseline findings in the Collaborative Longitudinal Evaluation of Keratoconus (CLEK) Study. Invest Ophthalmol Vis Sci. 1998;39(13):2537-46. PMID: 9856763.
- Brasil. Presidência da República. Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, art. 4º, inciso III (deficiência visual: cegueira e baixa visão), com a redação dada pelo Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Diário Oficial da União. 1999. Disponível em: planalto.gov.br.
- Wagner H, Barr JT, Zadnik K. Collaborative Longitudinal Evaluation of Keratoconus (CLEK) Study: methods and findings to date. Cont Lens Anterior Eye. 2007;30(4):223-32. DOI: 10.1016/j.clae.2007.03.001. PMID: 17481941.
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Revisão médica: Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, médica oftalmologista, CRM-SP 148.173, RQE 59.216 (Oftalmologia). Revisado em AAAA-MM-DD. Conteúdo educativo; não substitui a consulta, o exame dos olhos e a orientação individual do seu médico.
Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.