Van Gogh, Monet e Degas: as doenças dos olhos na pintura
Monet pintou com catarata, e Degas perdeu a visão central. Sobre Van Gogh, Rembrandt e Leonardo, há hipóteses. Veja o que se sabe, o que é hipótese e o que foi descartado.
Vincent van Gogh, Campo de trigo com ciprestes, 1889. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público. Van Gogh está nesta página pelas hipóteses sobre a forma como ele via as cores e as luzes; nenhuma foi comprovada.
Em resumo: o que se sabe, artista por artista
Monet teve catarata nos dois olhos e operou o olho direito em 1923, aos 82 anos: é um caso documentado, assim como a catarata de Mary Cassatt.
Degas perdeu a visão central por uma doença da retina, provavelmente hereditária; a perda está nas cartas dele, e a causa exata ainda é discutida.
Sobre Van Gogh, Rembrandt e Leonardo da Vinci, o que existe são hipóteses tiradas das obras, sem exame da época.
A ideia de que El Greco alongava as figuras por causa de um astigmatismo foi refutada.
O que se discute sobre a visão de cada artista, com a fonte
Quando os olhos não apontam para o mesmo ponto, a cena pode aparecer duas vezes: é a visão dupla. No adulto, quando o desvio é novo, essa costuma ser a queixa.
Vincent van Gogh, Campo de trigo com ciprestes, 1889. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público.Claude Monet, A ponte japonesa, 1899. National Gallery of Art, Washington. Domínio público.Edgar Degas, A aula de dança, c. 1873. National Gallery of Art, Washington. Domínio público.Vincent van Gogh, A noite estrelada, 1889 (recorte). Museum of Modern Art, Nova York. Domínio público. Simulação didática, não é o que o artista via. A mancha no centro sobre o Degas é a mesma do Instituto da Retina.
Os 11 artistas
A lista vai do caso documentado à hipótese descartada. Cada história traz a fonte e, quando a doença tem tratamento hoje, o Instituto da rede que cuida dela.
Claude Monet
1840–1926
DocumentadoCatarata nos dois olhos
Monet começou a notar a visão pior por volta de 1908, aos 68 anos: era catarata nos dois olhos, que avançou nos anos seguintes. Em 1923, aos 82 anos, depois de adiar por anos, ele operou a catarata do olho direito.
Na catarata nuclear, o cristalino, a lente natural do olho, amarelece e fica opaco a partir do centro. O azul perde força, e a cena passa a ser vista como através de um filtro amarelado.
A Ponte Japonesa de 1899 tem verdes e azuis vivos e reflexos precisos na água. Nas versões pintadas entre 1918 e 1924, com a catarata avançada, as formas se desfazem em laranja, vermelho e marrom, e a ponte quase some.
Imagem: Claude Monet, A ponte japonesa, 1899. National Gallery of Art, Washington. Domínio público.
DocumentadoDoença da retina, provavelmente hereditária
A perda da visão está nas cartas; a causa exata ainda é discutida.
Degas notou os primeiros sinais em 1870, aos 36 anos. Um estudo de 2007, feito a partir das cartas do pintor e da família, descreve perda da visão central nos dois olhos e sensibilidade à luz, e aponta uma doença hereditária da retina. Em 2021, testes genéticos em descendentes levaram os autores a concluir que provavelmente não era a doença de Stargardt.
Uma prima de Degas, Estelle Musson, perdeu a visão do mesmo jeito, o que reforça a hipótese de doença hereditária.
As pinturas dos anos 1860 e 1870 têm linhas precisas e rostos detalhados. Nas dos anos 1890 e 1900, as figuras parecem sair de uma névoa colorida. Quando a pintura detalhada ficou difícil, ele passou ao pastel e, depois, às esculturas de bailarinas e cavalos em cera.
Imagem: Edgar Degas, A aula de dança, c. 1873. National Gallery of Art, Washington. Domínio público.
Mary Cassatt recebeu o diagnóstico de catarata em 1912, aos 68 anos, e por volta de 1919 teve também retinopatia diabética. As cirurgias de catarata de 1917 e 1919 não deram certo, e ela praticamente perdeu a visão no fim da vida.
Ela deixou a gravura, que pede traço preciso, em 1910, e trocou o óleo pelo pastel. As pinceladas ficaram mais largas e a gama de cores, mais curta. Parou de pintar em 1915, aos 71 anos.
Hoje a catarata é tratada com cirurgia, e a indicação, os riscos e a recuperação são avaliados na consulta.
Imagem: Mary Cassatt, Mãe e filho (c. 1909–1914), pastel, High Museum of Art, Atlanta. Domínio público.
Sem fonte médica citadaDegeneração macular relacionada à idade (DMRI)
Esta página ainda não cita uma fonte médica para o diagnóstico.
A partir de 1964, aos 77 anos, O'Keeffe começou a perder a visão central. A última pintura a óleo sem ajuda é de 1972; ela continuou criando com assistentes até os 96 anos, usando a visão dos lados.
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Nas últimas obras, ela voltou a temas da juventude e foi mais longe na abstração.
As obras de O'Keeffe ainda são protegidas por direito autoral, por isso esta página não mostra nenhuma.
HipóteseVisão amarelada e halos em volta das luzes
Os halos em volta das estrelas e o amarelo intenso das telas de Arles levaram pesquisadores a levantar hipóteses sobre a visão de Van Gogh. A mais citada, de um artigo de 1981 no JAMA, é a visão amarelada (xantopsia) por intoxicação por digitálico. Não há registro de que ele tenha tomado o remédio, e nenhuma hipótese foi comprovada.
Na Noite estrelada (1889), cada estrela tem anéis de luz em volta. Halos em volta das luzes aparecem, por exemplo, na crise de glaucoma agudo, quando a córnea incha, mas também têm outras causas.
A hipótese do digitálico parte dos dois retratos do Dr. Gachet, médico de Van Gogh, segurando a dedaleira, a planta de onde vem o remédio, que na época era usado contra a epilepsia.
Imagem: Vincent van Gogh, A noite estrelada, 1889 (recorte). Museum of Modern Art, Nova York. Domínio público.
Em 2004, a neurobiologista Margaret Livingstone e Bevil Conway, de Harvard, examinaram a posição dos olhos nos autorretratos de Rembrandt e viram que um deles costuma apontar para fora. A carta deles no New England Journal of Medicine tem um título em forma de pergunta: "Was Rembrandt stereoblind?" ("Rembrandt não tinha visão de profundidade?").
Na exotropia, um olho desvia para fora, e fica difícil juntar as imagens dos dois olhos numa só, em três dimensões. Muitas vezes o cérebro deixa de lado a imagem de um dos olhos.
Os autores sugerem que ver a cena mais "achatada" pode ter ajudado a pintar volume numa tela plana. Em 2011, Livingstone e colegas mediram a visão de profundidade de estudantes de arte e de artistas e encontraram, em média, uma visão de profundidade pior que a de quem não é artista. Isso não prova que o estrabismo faça alguém pintar melhor.
Imagem: Rembrandt, Autorretrato, 1660. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público.
HipóteseDesvio para fora que aparece às vezes (exotropia intermitente)
Christopher Tyler, da City University of London, mediu a posição das pupilas em seis obras tidas como retratos ou autorretratos de Leonardo. Em cinco, os olhos parecem desviar para fora; no Homem Vitruviano, não. Para ele, isso sugere uma exotropia intermitente. Sem registro médico da época, é uma inferência a partir das obras.
A exotropia intermitente costuma aparecer com o cansaço ou ao olhar para longe. Tyler argumenta que esses momentos de visão de um olho só podem ter ajudado Leonardo a representar a profundidade numa superfície plana.
Imagem: Retrato de Leonardo da Vinci, gravura colorida do século XIX. Domínio público. Não é uma das seis obras do estudo.
Em 1913, o oftalmologista Germán Beritens propôs que as figuras alongadas de El Greco viriam de um astigmatismo. Stuart Anstis refutou a ideia em 2002: se o pintor visse tudo alongado, veria a própria tela alongada também e corrigiria as proporções até parecerem normais. Hoje o alongamento é visto como escolha de estilo, ligada ao maneirismo italiano e à pintura bizantina de Creta, onde ele nasceu.
Imagem: El Greco, Vista de Toledo, c. 1599–1600. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público.
Paul Cézanne
1839–1906
HipóteseRetinopatia diabética
Esta página ainda não cita uma fonte médica para ela.
Cézanne tinha diabetes e, segundo relatos, era míope. Uma hipótese é que a retinopatia diabética tenha mudado a forma como ele via as cores e a profundidade nas obras tardias. Não há registro de exame dos olhos que a confirme.
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Na retinopatia diabética, o açúcar alto no sangue danifica os vasinhos da retina. No começo pode não haver sintoma; quando o líquido chega à mácula, o centro embaça. Quem tem diabetes faz o exame de retina mesmo enxergando bem, no intervalo que a equipe definir.
Imagem: Paul Cézanne, As grandes banhistas (c. 1894–1905), National Gallery, Londres. Domínio público.
Depois de uma cirurgia de câncer no abdome, em 1941, Matisse ficou muito debilitado e passou a trabalhar com recortes de papel pintado com guache. Uma hipótese é que as formas grandes e as cores puras dos recortes também tenham sido uma adaptação à visão mais fraca.
Imagem: Henri Matisse, O caracol, 1953. Tate, Londres. Em domínio público no Brasil desde 2025.
Frida Kahlo
1907–1954
Sem doença dos olhosO olhar como tema da obra
Frida Kahlo não teve diagnóstico de doença dos olhos. Ela está aqui pelo olhar nos autorretratos: depois do acidente de ônibus de 1925, aos 18 anos, a dor a acompanhou pelo resto da vida, e os olhos e as lágrimas viraram tema da obra.
Em "Diego e eu" (1949), o retrato de Diego Rivera pintado na testa de Frida tem um terceiro olho. Em "A coluna partida" (1944), as lágrimas e o olhar direto falam de dor e de resistência.
A obra dela é usada no ensino médico para falar de empatia com quem sente dor.
Imagem: Frida Kahlo, A coluna partida, 1944. Em domínio público no Brasil desde 2025.
Dois testes que você faz em casa
Eles ajudam a perceber quando vale procurar o oftalmologista. A consulta continua necessária.
Não há registro de que Van Gogh tenha ficado cego: ele pintou até 1890, ano em que morreu. O que existe são hipóteses sobre como ele via as cores e as luzes. A mais citada, de um artigo de 1981 no JAMA, é a visão amarelada por intoxicação por digitálico, mas não há registro de que ele tenha tomado o remédio.
A catarata mudou a pintura de Monet?
Sim, e é um caso documentado. As versões da Ponte Japonesa pintadas entre 1918 e 1924, com a catarata avançada, têm cores mais quentes e formas que se desfazem, se comparadas às de 1899. Monet operou a catarata do olho direito em 1923, aos 82 anos.
Que doença Degas tinha nos olhos?
Uma doença da retina que tirou a visão central, provavelmente hereditária: uma prima dele perdeu a visão do mesmo jeito. Em 2021, testes genéticos em descendentes levaram os autores a concluir que provavelmente não era a doença de Stargardt. O diagnóstico exato continua em aberto.
O estrabismo de Rembrandt e de Leonardo da Vinci é comprovado?
Não. São hipóteses tiradas das obras: Livingstone e Conway mediram os olhos nos autorretratos de Rembrandt (New England Journal of Medicine, 2004), e Tyler fez o mesmo em seis obras ligadas a Leonardo (JAMA Ophthalmology, 2019). Sem registro médico da época, nenhuma das duas fecha um diagnóstico.
El Greco pintava figuras alongadas por causa de astigmatismo?
Provavelmente não. A ideia, de 1913, foi refutada por Anstis em 2002: quem visse tudo alongado veria a própria tela alongada e corrigiria as proporções. Hoje o alongamento é visto como escolha de estilo.
Cézanne tinha retinopatia diabética?
Não se sabe. Cézanne tinha diabetes e, segundo relatos, era míope. A retinopatia é uma complicação possível do diabetes, mas não há registro de exame dos olhos que a confirme, e a ligação com o estilo das obras tardias é uma hipótese.
Frida Kahlo tinha doença nos olhos?
Não há registro de diagnóstico de doença dos olhos. A obra dela usa o olhar como tema, como o terceiro olho no retrato de Diego em "Diego e eu" e as lágrimas em "A coluna partida".
O que a medicina faz hoje por esses problemas?
A catarata, como a de Monet e a de Mary Cassatt, é tratada com cirurgia (facoemulsificação com lente intraocular). A DMRI, como a de Georgia O'Keeffe, é acompanhada com OCT e, na forma úmida, tratada com injeções de anti-VEGF. Doenças hereditárias da retina, como a provável doença de Degas, têm acompanhamento e reabilitação visual. O glaucoma é controlado com colírios, laser ou cirurgia, e o estrabismo pode ser corrigido com cirurgia. A indicação, os riscos e a recuperação dependem de cada caso.
Vincent van Gogh, Campo de trigo com ciprestes, 1889. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público.
Claude Monet, A ponte japonesa, 1899. National Gallery of Art, Washington. Domínio público.
Edgar Degas, A aula de dança, c. 1873. National Gallery of Art, Washington. Domínio público.
Vincent van Gogh, A noite estrelada, 1889 (recorte). Museum of Modern Art, Nova York. Domínio público.
Mary Cassatt, Mãe e filho (c. 1909–1914), pastel, High Museum of Art, Atlanta. Domínio público.
Rembrandt, Autorretrato, 1660. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público.
Retrato de Leonardo da Vinci, gravura colorida do século XIX. Domínio público. Não é uma das seis obras do estudo.
El Greco, Vista de Toledo, c. 1599–1600. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público.
Paul Cézanne, As grandes banhistas (c. 1894–1905), National Gallery, Londres. Domínio público.
Henri Matisse, O caracol, 1953. Tate, Londres. Em domínio público no Brasil desde 2025.
Frida Kahlo, A coluna partida, 1944. Em domínio público no Brasil desde 2025.
As versões com efeito da galeria são simulações feitas sobre as fotografias dos museus; a mancha no centro sobre o Degas é a mesma do Instituto da Retina.
Revisão médica: Dr. Fernando Macei Drudi, médico oftalmologista, CRM-SP 139.300, RQE 50.645 (Oftalmologia), com residência em Oftalmologia e fellowship de 3 anos em retina e cirurgia de catarata no HSPE. Atualizado em . Ver o perfil do Dr. Fernando.
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Monet, Degas e Van Gogh não tinham os exames de hoje
Uma consulta de rotina ajuda a descobrir cedo problemas que não dão sintoma.