Seg–Sex: 8h–18h  |  Sáb: 8h–12h
cornea

Transplante de Córnea: Fila do SUS, Tipos e Recuperação Completa

Publicado em 05 de agosto de 2026 Atualizado em 22 de agosto de 2026 Revisão médica: 07 de agosto de 2026 17 min de leitura Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida
Transplante de Córnea: Quando É Indicado e Como Funciona — ilustração médica sobre cirurgia de córnea — Instituto Drudi e Almeida Oftalmologia
Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida
Autor Médico
Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida
CRM-SP 148.173

Resumo em linguagem simples

Este artigo explica de forma acessível o que é transplante de córnea: fila do sus, tipos e recuperação completa, incluindo causas, sintomas, diagnóstico e opções de tratamento disponíveis no Instit...

CID-10: Z94.7 — Córnea transplantada Ver todos os artigos de cornea

Resposta rápida. A córnea é a lente transparente na frente do olho. Quando ela perde a transparência ou o formato, o transplante devolve a visão. No Brasil, o acesso passa pela fila única de cada estado, com critério cronológico e espera média nacional de 369 dias — mas que varia de 63 dias no Ceará a mais de 590 no Maranhão. A córnea nunca é cobrada do paciente, mesmo quando a cirurgia é feita por convênio ou particular. Hoje se substitui apenas a camada doente, e não a córnea inteira.


A fila no Brasil: os números

Figura 1 — Gráfico da fila de espera por transplante de córnea no Brasil entre 2019 e 2023, tempo médio de espera e variação entre estados.

Figura 1. O transplante de córnea responde por cerca de três de cada quatro transplantes feitos no país.

Começo por aqui porque é a primeira pergunta de quase todo paciente que recebe a indicação.

Segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e do Sistema Nacional de Transplantes, a fila brasileira cresceu de forma consistente:

Ano Pacientes na fila
2019 12.212
2020 16.337
2021 20.134
2022 23.946
2023 26.905

O tempo médio nacional de espera chegou a 369 dias no primeiro semestre de 2025 — o dobro do registrado dez anos antes.

A variação entre estados é enorme. Maranhão e Pará passam de 590 dias. No outro extremo, o Ceará resolve em 63 dias e o Paraná em 119. Essa diferença tem menos a ver com a doença e mais com a existência de uma rede ativa de captação em cada localidade.

São Paulo lidera a fila, com 4.587 pacientes em 2023.

Ainda assim, vale o contexto: entre janeiro de 2015 e julho de 2025 foram realizados 150.376 transplantes de córnea no Brasil. O sistema funciona — está sobrecarregado.

Quem está esperando

  • 55,7% são mulheres
  • 47% têm 65 anos ou mais — reflete ceratopatia bolhosa e distrofia de Fuchs
  • 17% têm entre 18 e 34 anos — majoritariamente ceratocone
  • 458 crianças e adolescentes na lista

São dois públicos muito diferentes esperando pela mesma coisa.


Como entrar na fila

Este é o trecho que quase nenhum texto explica, e que resolve a maior parte da angústia inicial.

1. Você precisa ser avaliado por uma equipe de transplante autorizada. Não basta ter o diagnóstico: a inscrição só pode ser feita por equipe credenciada pelo Ministério da Saúde. Nem todo oftalmologista, nem toda clínica tem essa autorização.

2. A equipe faz a inscrição no SIG, o sistema informatizado gerenciado pelo Sistema Nacional de Transplantes.

3. Você recebe um RGCT — Registro Geral de Cadastro Técnico. Esse número identifica você no cadastro único e permite consultar a sua situação na lista. Anote e guarde.

4. A distribuição é feita pela CNCDO do seu estado — a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos.

5. A lista é única por estado e o critério é cronológico. Vale a ordem de inscrição, conforme a Portaria GM nº 3.407/1998, com exceções previstas para casos de urgência.

Não existe compatibilidade a testar

Diferente de rim, fígado ou coração, a córnea não exige tipagem sanguínea nem compatibilidade HLA. É justamente por isso que a distribuição pode ser puramente cronológica: qualquer córnea de qualidade serve para qualquer receptor.

Isso responde a uma dúvida comum: não há como "furar a fila" procurando um doador compatível, porque compatibilidade não é o gargalo. O gargalo é a doação.


Quanto custa

A córnea nunca é cobrada do paciente. Em nenhuma hipótese.

A entrevista familiar, a captação e o processamento pelo banco de olhos são integralmente custeados pelo SUS — inclusive quando a cirurgia é feita fora da rede pública.

O que muda conforme a via:

  • Pelo SUS: todo o processo é gratuito, incluindo a cirurgia
  • Por convênio: o plano cobre a cirurgia. O tecido continua vindo da fila e sem custo
  • Particular: você paga a cirurgia. O tecido continua vindo da fila e sem custo

Não existe "comprar uma córnea" no Brasil. A comercialização de tecidos é proibida por lei.

O que a via particular ou por convênio pode oferecer é escolha de equipe, de hospital e de data — não posição na fila, que segue o critério cronológico estadual.


O que é a córnea e por que ela adoece

Figura 2 — Corte da córnea mostrando epitélio, camada de Bowman, estroma, membrana de Descemet e endotélio, com a doença típica de cada camada.

Figura 2. Meio milímetro de espessura, transparente, sem um único vaso sanguíneo.

A córnea é a cúpula transparente na frente do olho. Ela faz duas coisas: protege e foca cerca de dois terços da luz que entra. Um óculos só corrige a diferença que sobra.

Ela tem cinco camadas, e cada uma adoece de um jeito:

Epitélio — a superfície. Regenera sozinho em dias. É onde acontecem arranhões e erosões recorrentes.

Camada de Bowmannão regenera. Lesões aqui viram cicatriz permanente.

Estroma — 90% da espessura. É onde estão o ceratocone, as cicatrizes de infecção e os traumas profundos.

Membrana de Descemet — o suporte do endotélio.

Endotélio — a camada mais interna, uma única fileira de células que bombeia água para fora da córnea e a mantém transparente. Essas células não se multiplicam. Nascemos com um número finito e ele só diminui.

Duas camadas não se regeneram: a de Bowman e o endotélio. É por isso que a maior parte dos transplantes existe.


Quando o transplante é indicado

Ceratocone avançado. A córnea afina e assume formato de cone, gerando astigmatismo irregular que óculos não corrigem. Principal causa entre pacientes jovens.

Distrofia de Fuchs. Doença hereditária em que o endotélio perde células precocemente. A córnea incha, embaça e forma bolhas. Piora tipicamente de manhã.

Ceratopatia bolhosa. Falência do endotélio após cirurgia intraocular, mais frequentemente catarata. Junto com Fuchs, explica a maior parte da fila acima dos 65 anos.

Cicatrizes de córnea. Por infecções — herpes ocular, úlceras bacterianas, fúngicas ou por Acanthamoeba em usuários de lente de contato — ou por trauma.

Falência de transplante anterior. Um enxerto que rejeitou ou perdeu função pode ser substituído.

Ectasia pós-cirurgia refrativa e degenerações, como a marginal pelúcida.


Antes de pensar em transplante

Esta seção existe porque muito paciente jovem recebe o diagnóstico de ceratocone e entra em pânico achando que vai precisar de transplante. A maioria não vai.

O cenário mudou nas últimas duas décadas:

Crosslinking. Um procedimento que reforça as ligações do colágeno e estabiliza a progressão do ceratocone. Feito a tempo, evita que a córnea chegue ao ponto de precisar de enxerto.

Anéis intraestromais. Segmentos implantados na espessura da córnea que regularizam o formato e melhoram a visão com óculos ou lente.

Lentes de contato especiais. Rígidas gás-permeáveis, esclerais e híbridas devolvem visão útil em córneas muito irregulares, adiando ou dispensando a cirurgia.

O transplante entra quando essas opções se esgotaram — quando a córnea está muito fina, muito irregular ou já cicatrizada.

Se você tem ceratocone, conheça o Instituto do Ceratocone. Diagnóstico precoce é o que mantém você fora da fila.


Os tipos de transplante

Figura 3 — Comparação entre ceratoplastia penetrante, DALK, DSAEK e DMEK, mostrando qual camada da córnea é substituída em cada técnica.

Figura 3. A cirurgia moderna substitui apenas a camada doente. Em dourado, o tecido do doador.

PK — Ceratoplastia penetrante

Substitui toda a espessura da córnea. O cirurgião remove um botão circular da córnea doente e sutura o tecido do doador no lugar.

Quando: cicatrizes profundas, ceratocone muito avançado, casos em que todas as camadas estão comprometidas.

Característica: os pontos permanecem por meses a anos e são removidos gradualmente.

DALK — Ceratoplastia lamelar anterior profunda

Substitui tudo, menos o endotélio do paciente, que é preservado.

Quando: ceratocone e cicatrizes superficiais, desde que o endotélio esteja saudável.

A grande vantagem: como o endotélio é do próprio paciente, não existe rejeição endotelial — que é a forma mais grave.

DSAEK — Ceratoplastia endotelial com estroma

Substitui o endotélio junto com uma fatia fina do estroma posterior.

Quando: distrofia de Fuchs e ceratopatia bolhosa.

DMEK — Ceratoplastia endotelial pura

Substitui apenas a membrana de Descemet e o endotélio — uma película de cerca de 15 micrômetros.

Quando: as mesmas indicações da DSAEK, com melhor resultado visual.

Por que substituir menos é melhor: quanto menos tecido estranho entra no olho, menor o risco de rejeição e mais rápida a recuperação. Mas a técnica precisa combinar com a doença — não adianta trocar só o endotélio se o estroma está cicatrizado.


PK ou DALK no ceratocone: o que a evidência mostra

A intuição diz que a DALK deve ser sempre melhor, já que preserva o endotélio. A evidência mostra um quadro mais equilibrado.

Uma revisão Cochrane de ensaios randomizados encontrou que a rejeição é menos provável na DALK (razão de chances 0,33; IC 95% 0,14–0,81), com evidência de qualidade moderada — mas não encontrou diferença na acuidade visual final entre as duas técnicas [2].

Uma metanálise de 2025, com 47 estudos e 27.018 olhos, confirmou e completou o quadro: acuidade visual e astigmatismo em um ano são comparáveis; a PK teve maior risco de rejeição, mas menor risco de falência do enxerto [3].

A informação honesta que o paciente merece: a DALK é tecnicamente mais difícil. Ela depende de separar uma camada de poucos micrômetros sem perfurá-la. Na revisão Cochrane, 4 de 81 DALKs precisaram ser convertidas em PK durante a própria cirurgia por dificuldade técnica.

Ou seja: a DALK evita a rejeição mais grave, mas pode não ser possível de completar. Isso é conversado antes, e o consentimento cobre as duas possibilidades.


DMEK ou DSAEK na distrofia de Fuchs

Aqui a diferença é mais clara, e vem com um trade-off.

Uma metanálise com 947 olhos de pacientes com Fuchs comparou as duas técnicas [4]:

Desfecho DMEK DSAEK
Acuidade visual aos 12 meses 0,16 logMAR 0,30 logMAR
Rejeição 60% menos frequente (RR 0,40) referência
Necessidade de reinjeção de ar 2,5× mais frequente referência
Satisfação do paciente muito maior (OR 10,29) referência

Outra metanálise, comparando DMEK com DSAEK ultrafina, confirmou a superioridade visual da DMEK aos 12 meses e a maior taxa de reinjeção [5].

Traduzindo: a DMEK entrega visão melhor e rejeita bem menos, mas tem chance maior de o enxerto descolar nas primeiras semanas e precisar de uma reinjeção de ar — um procedimento rápido, feito em ambiente cirúrgico, que reposiciona o tecido. Não é complicação grave, mas é um retorno a mais.


Como é a cirurgia

Anestesia: local com sedação na maioria dos casos; geral em crianças e em situações específicas.

Duração: de 40 minutos a cerca de 2 horas, conforme a técnica.

Internação: em geral no mesmo dia ou com uma noite de observação.

Pontos: presentes na PK e na DALK. Nas técnicas endoteliais, poucos ou nenhum — o enxerto é mantido no lugar por uma bolha de ar.

No pós-operatório imediato das técnicas endoteliais, o paciente precisa ficar deitado de barriga para cima por algumas horas, para que a bolha empurre o enxerto contra a córnea.


A recuperação, por técnica

Figura 4 — Comparação entre a recuperação do transplante endotelial, mais rápida, e a do transplante penetrante, que pode levar mais de um ano.

Figura 4. A diferença entre um transplante endotelial e um penetrante não é a cirurgia — é o tempo até enxergar bem.

Endotelial (DMEK/DSAEK): a visão melhora em semanas a poucos meses. É a recuperação mais rápida.

Lamelar anterior (DALK): pontos por meses, com a visão estabilizando ao longo do primeiro ano.

Penetrante (PK): a mais lenta. Os pontos podem ficar até dois anos e a visão pode levar mais de um ano para se estabilizar.

Os pontos saem aos poucos, e isso é proposital

Muito paciente estranha que os pontos não sejam retirados de uma vez. Cada ponto removido muda o formato da córnea. O cirurgião retira alguns por vez, medindo o astigmatismo entre uma sessão e outra, para moldar a curvatura. Não é demora — é ajuste fino.

O colírio de corticoide vai durar muito tempo

Meses, e em alguns casos anos, em doses cada vez menores. É o que segura a rejeição.

Parar por conta própria é a principal causa evitável de perda do enxerto. Se o colírio estiver caro ou difícil de conseguir, fale com a equipe — existem alternativas. Não interrompa em silêncio.


O astigmatismo depois do transplante

Esta é a razão pela qual um transplante pode ser "um sucesso" e ainda assim não devolver boa visão sem correção — e quase nenhum texto explica.

Quando a córnea é suturada, a tensão dos pontos raramente é perfeitamente uniforme. O resultado é astigmatismo irregular, às vezes de grau elevado, sobretudo após PK.

Como se resolve, em ordem:

  1. Remoção seletiva de pontos, guiada por topografia
  2. Óculos, quando o astigmatismo é regular e moderado
  3. Lentes de contato rígidas ou esclerais, que criam uma superfície óptica regular sobre a córnea irregular — solução frequente e muito eficaz
  4. Cirurgia refrativa sobre o enxerto — incisões relaxantes, laser ou anel — em casos selecionados, meses após a estabilização

Se você fez um transplante e enxerga mal sem óculos, isso não significa que a cirurgia falhou. Significa que falta a etapa de correção óptica.


Rejeição: reconhecer e tratar

Figura 5 — Comparação entre transplante saudável e transplante em rejeição, com vermelhidão, opacificação e precipitados, além do mnemônico RSVD.

Figura 5. A rejeição pode ser revertida com colírio se tratada nos primeiros dias.

A córnea é o tecido com um dos menores índices de rejeição do corpo humano, porque não tem vasos sanguíneos — o sistema imune tem menos acesso a ela.

Ainda assim, a rejeição pode acontecer meses ou anos depois. Decore os quatro sinais:

Sinal O que você sente
R Rubor olho vermelho de repente
S Sensibilidade incômodo forte com a luz
V Visão embaçamento novo
D Dor dor no olho operado

Qualquer um deles: procure atendimento no mesmo dia. Tratada nos primeiros dias com colírio de corticoide, a rejeição na maioria das vezes é revertida. Semanas depois, o enxerto pode estar perdido.

O risco varia muito conforme a técnica

  • DMEK: o menor risco de todos — cerca de 60% menos que a DSAEK [4]
  • DALK: não existe rejeição endotelial, que é a forma mais grave
  • PK: o maior risco, porque substitui todas as camadas

Rejeição não é sinônimo de perda do enxerto. É um episódio tratável — desde que reconhecido a tempo.


Quanto tempo dura um transplante

Não há prazo de validade. Há fatores que influenciam:

Favorecem a durabilidade: ceratocone como indicação, olho sem inflamação prévia, ausência de vasos na córnea, glaucoma controlado, uso correto dos colírios.

Encurtam: vascularização da córnea, olho com múltiplas cirurgias prévias, glaucoma descompensado, episódios repetidos de rejeição, doenças de superfície ocular.

Transplantes por ceratocone costumam ter a melhor sobrevida — não é raro durarem décadas. Transplantes em olhos já operados várias vezes, ou com córnea vascularizada, têm sobrevida menor.

Se um enxerto falha, é possível refazer. Cada nova cirurgia tende a ter prognóstico um pouco pior, mas retransplante é procedimento estabelecido.


O que o transplante não resolve

Expectativa realista evita frustração, e este ponto precisa ser dito antes da cirurgia.

O transplante troca a janela, não o que está atrás dela.

Se a retina ou o nervo óptico estiverem comprometidos — por glaucoma avançado, degeneração macular, retinopatia diabética ou sequela de trauma —, a córnea nova vai ficar transparente, mas a visão não vai voltar ao que se espera.

Por isso a avaliação pré-operatória inclui exames da retina e do nervo óptico, e às vezes ultrassom quando a córnea está opaca demais para permitir o exame direto.

Quando há dúvida sobre o potencial visual, isso é conversado antes. Um transplante pode ser indicado mesmo com prognóstico visual limitado — para aliviar dor, por exemplo, na ceratopatia bolhosa. Mas o objetivo precisa estar claro para os dois lados.


Restrições práticas

Nas primeiras semanas: não esfregar o olho, dormir com protetor acrílico, evitar pegar peso e abaixar a cabeça, nada de piscina, mar ou sauna.

Óculos de proteção: recomendados durante atividades de risco pelo resto da vida, especialmente após PK. Uma córnea transplantada nunca recupera a resistência mecânica de uma córnea íntegra.

Esportes de contato: evitados de forma permanente após PK. Boxe, artes marciais e futebol de cabeceio representam risco real de abertura da ferida.

Dirigir: liberado quando a visão atingir o mínimo legal, o que varia muito conforme a técnica.

Trabalho: atividades administrativas costumam ser retomadas em 1 a 2 semanas; trabalho pesado ou em ambiente com poeira exige mais tempo e proteção.

Maquiagem nos olhos: só após liberação, tipicamente algumas semanas.


Doação de córnea

Figura 6 — Etapas da doação de córnea: notificação, entrevista com a família, captação, banco de olhos, distribuição pela CNCDO e transplante.

Figura 6. Uma só pessoa pode devolver a visão de duas.

O gargalo do sistema brasileiro não é técnico nem financeiro. É a doação.

O que muita gente não sabe:

  • Não há limite rígido de idade para doar córnea
  • Quem usa óculos, tem catarata ou fez cirurgia ocular geralmente pode doar
  • Não existe tipagem sanguínea nem HLA para córnea
  • A captação não desfigura o rosto do doador
  • O velório de caixão aberto segue normalmente
  • Uma pessoa pode devolver a visão de duas

A decisão é da família. No Brasil, a autorização é familiar — não basta ter dito que queria doar, e não basta constar em documento. É a família que assina, no momento mais difícil que ela vai viver.

Por isso a única coisa realmente eficaz que você pode fazer é conversar sobre isso em vida. Dizer aos seus que você quer ser doador transforma uma decisão angustiante em cumprimento de um desejo conhecido.


Onde tratar em São Paulo

O Instituto Drudi e Almeida é equipe de transplante autorizada pelo Ministério da Saúde — o que significa que podemos avaliar, indicar e inscrever o paciente na fila, sem necessidade de encaminhamento a outro serviço.

Realizamos as técnicas de ceratoplastia conforme a indicação de cada caso, com cirurgias no MIRA Hospital Oftalmológico, e acompanhamento nas cinco unidades da Grande São Paulo — Santana, Tatuapé, Lapa, São Miguel Paulista e Guarulhos.

O atendimento em córnea é conduzido pela Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida (CRM-SP 148.173 · RQE 59.216), especialista em córnea e doenças externas.

📞 (11) 5430-2421 · 💬 WhatsApp (11) 91654-4653

📅 Agendar avaliação · Conheça o Instituto do Ceratocone


Perguntas frequentes

Quanto tempo demora a fila de transplante de córnea?

A média nacional era de 369 dias no primeiro semestre de 2025, mas varia muito por estado: 63 dias no Ceará, 119 no Paraná, e acima de 590 dias no Maranhão e no Pará. A lista é única por estado e o critério é cronológico.

Como faço para entrar na fila do transplante de córnea?

Você precisa ser avaliado por uma equipe de transplante autorizada pelo Ministério da Saúde, que faz a inscrição no sistema do SNT. A inscrição gera o RGCT (Registro Geral de Cadastro Técnico), número que identifica você e permite consultar sua situação. A distribuição é feita pela CNCDO do seu estado.

Quanto custa um transplante de córnea?

A córnea nunca é cobrada. Entrevista familiar, captação e processamento pelo banco de olhos são custeados pelo SUS, inclusive quando a cirurgia é feita por convênio ou particular. Nessas vias, paga-se a cirurgia — nunca o tecido. Comercializar tecidos é proibido por lei no Brasil.

Dá para furar a fila pagando?

Não. A posição é definida pelo critério cronológico estadual. Operar por convênio ou particular permite escolher equipe, hospital e data — não a posição na lista.

Preciso ter compatibilidade com o doador?

Não. Diferente de outros órgãos, a córnea não exige tipagem sanguínea nem HLA. É por isso que a distribuição pode ser cronológica.

Qual a diferença entre DMEK e DSAEK?

Ambas trocam apenas a camada interna. A DMEK substitui só a Descemet e o endotélio, com melhor visão final (0,16 contra 0,30 logMAR aos 12 meses) e cerca de 60% menos rejeição — mas tem 2,5 vezes mais chance de precisar de uma reinjeção de ar nas primeiras semanas. A DSAEK inclui uma fatia fina de estroma e é tecnicamente menos exigente.

DALK é sempre melhor que o transplante penetrante?

Não necessariamente. A DALK tem menos rejeição (OR 0,33) e preserva o endotélio do paciente, mas a acuidade visual final é comparável à da PK, e a PK tem menor risco de falência do enxerto. Além disso, a DALK é tecnicamente mais difícil e às vezes precisa ser convertida em PK durante a cirurgia.

Transplante de córnea rejeita muito?

A córnea tem um dos menores índices de rejeição do corpo, porque não tem vasos sanguíneos. O risco varia pela técnica: menor na DMEK, praticamente inexistente para rejeição endotelial na DALK, e maior na ceratoplastia penetrante. E rejeição não significa perda: tratada nos primeiros dias com colírio, geralmente é revertida.

Quais são os sinais de rejeição?

O mnemônico RSVD: Rubor (olho vermelho súbito), Sensibilidade à luz, Visão embaçada de novo e Dor no olho operado. Qualquer um deles exige atendimento no mesmo dia.

Quanto tempo demora para enxergar bem?

Depende da técnica. Nas endoteliais (DMEK/DSAEK), semanas a poucos meses. Na DALK, ao longo do primeiro ano. Na penetrante, pode levar mais de um ano, e os pontos ficam até dois anos.

Por que os pontos demoram tanto para sair?

Porque cada ponto removido muda o formato da córnea. O cirurgião retira alguns por vez, medindo o astigmatismo entre as sessões, para moldar a curvatura. É ajuste fino, não demora.

Fiz transplante e continuo enxergando mal. Falhou?

Não necessariamente. A causa mais comum é astigmatismo residual, que se corrige com remoção seletiva de pontos, óculos, lentes rígidas ou esclerais e, em casos selecionados, cirurgia refrativa sobre o enxerto. Vale também confirmar se a retina e o nervo óptico estão íntegros.

Todo ceratocone precisa de transplante?

Não, e a maioria não precisa. Crosslinking estabiliza a progressão, anéis intraestromais melhoram o formato e lentes especiais devolvem visão útil em córneas irregulares. O transplante entra quando essas opções se esgotaram.

Quem pode doar córnea?

Praticamente qualquer pessoa. Não há limite rígido de idade, e quem usa óculos, tem catarata ou já fez cirurgia ocular geralmente pode doar. As contraindicações são infecções específicas e algumas doenças neurológicas. A captação não desfigura o rosto e o velório de caixão aberto segue normalmente.

Quanto tempo dura um transplante de córnea?

Não há prazo fixo. Transplantes por ceratocone costumam ter a melhor sobrevida, não sendo raro durarem décadas. Olhos com córnea vascularizada, glaucoma descompensado ou múltiplas cirurgias prévias têm sobrevida menor. Se um enxerto falha, é possível refazer.


Referências

  1. Conselho Brasileiro de Oftalmologia — Observatório CBO; Sistema Nacional de Transplantes / Ministério da Saúde. Dados de fila de espera e tempo médio para transplante de córnea, 2019–2025. cbo.net.br

  2. Keane M, Coster D, Ziaei M, Williams K. Deep anterior lamellar keratoplasty versus penetrating keratoplasty for treating keratoconus. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(7):CD009700. doi:10.1002/14651858.CD009700.pub2

  3. Awad A, Elettreby AM, Abo Elnaga A, et al. Penetrating Keratoplasty versus Deep Anterior Lamellar Keratoplasty for Keratoconus: A Systematic Review and Meta-Analysis of 27,018 Eyes. Semin Ophthalmol. 2025;40(5):364-381. doi:10.1080/08820538.2025.2457583

  4. Marques RE, Guerra PS, Sousa DC, Gonçalves AI, Quintas AM, Rodrigues W. DMEK versus DSAEK for Fuchs' endothelial dystrophy: A meta-analysis. Eur J Ophthalmol. 2019;29(1):15-22. doi:10.1177/1120672118757431

  5. Maier AB, Milek J, Joussen AM, Dietrich-Ntoukas T, Lichtner G. Systematic Review and Meta-analysis: Outcomes After Descemet Membrane Endothelial Keratoplasty Versus Ultrathin Descemet Stripping Automated Endothelial Keratoplasty. Am J Ophthalmol. 2023;245:222-232. doi:10.1016/j.ajo.2022.09.013

  6. Brasil. Portaria GM nº 3.407, de 5 de agosto de 1998 — regulamento técnico sobre as atividades de transplante e lista única de receptores. Ministério da Saúde.

  7. American Academy of Ophthalmology. Corneal Edema and Opacification Preferred Practice Pattern. aao.org

  8. Associação Pan-Americana de Bancos de Olhos e Sociedade Brasileira de Bancos de Olhos. sbbo.org.br


Revisão médica. Conteúdo escrito por Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, CRM-SP 148.173 · RQE 59.216 — Córnea e Doenças Externas. Revisão por Dr. Fernando Macei Drudi, CRM-SP 139.300 · RQE 50.645. Última revisão médica: 7 de agosto de 2026. Consulte nossa Política Editorial.

Aviso importante. Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Se você já fez transplante de córnea e apresenta olho vermelho, dor, sensibilidade à luz ou piora da visão, procure atendimento no mesmo dia.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.

Ficou com dúvidas ou quer agendar uma consulta?

Fale com nossos especialistas

Agendar pelo WhatsApp