Em resumo
A lente escleral é uma lente rígida grande que se apoia na parte branca do olho e não encosta na córnea; por baixo dela fica uma camada de soro que corrige a irregularidade. Ela serve sobretudo no ceratocone moderado e avançado, quando a lente rígida comum não dá certo. Usa-se durante o dia, tirando para dormir, com higiene rigorosa.
Neste artigo
Resposta rápida: A lente escleral é uma lente rígida grande, em geral com 15 mm ou mais, que se apoia na parte branca do olho (a esclera), passa por cima da córnea sem tocá-la e leva por baixo uma camada de soro.[1] Ela é usada sobretudo no ceratocone moderado e avançado, quando a lente rígida comum não dá boa visão ou conforto; num levantamento internacional com 259 usuários, 87% usavam a escleral por irregularidade da córnea.[2] Na rede, o par custa R$ 5.015 à vista ou R$ 5.900 no cartão (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação), com a adaptação incluída.
O que é a lente escleral?
A lente escleral é uma lente de contato rígida, permeável ao oxigênio, grande o bastante para cobrir toda a córnea e o limbo (a borda entre a córnea e a parte branca) e se apoiar na conjuntiva que recobre a esclera.[1] Ela tem três zonas: a borda que pousa na parte branca, a cúpula que forma o vão sobre a córnea e a zona óptica, por onde se enxerga.
Antes de colocar, a pessoa enche a lente com soro fisiológico. Esse reservatório de líquido sustenta a lente, impede que a córnea resseque e neutraliza as irregularidades da superfície, que são a causa da visão distorcida no ceratocone.[1] Nos estudos, o diâmetro médio ficou entre 15,8 e 16,2 mm.[3][2] Para comparar, a lente rígida comum tem de 8 a 10 mm.[1]
- 1Lente escleral: rígida, permeável ao oxigênio, grande o bastante para cobrir a córnea inteira.
- 2Zona óptica, o centro da lente, por onde se enxerga.
- 3Reservatório de soro entre a lente e a córnea, colocado antes de pôr a lente.
- 4Córnea com o cone, que não toca a lente.
- 5Limbo, a borda entre a córnea e a parte branca, também sem contato.
- 6Apoio na parte branca do olho (conjuntiva sobre a esclera), em dourado.
Para que serve a lente escleral?
Ela serve para devolver visão útil quando a córnea é irregular demais para óculos e lentes comuns, e para proteger a superfície do olho em algumas doenças.
Ceratocone moderado e avançado
O ceratocone é a indicação mais frequente.[1] Num estudo com 157 olhos com ceratocone, a melhor visão passou, em média, de cerca de 20/63 com óculos para perto de 20/25 com a escleral.[3] Num serviço belga, 51 olhos com ceratocone grave (curvatura máxima de 70 dioptrias ou mais), que iriam para transplante, receberam a lente; 40 ainda a usavam cerca de 30 meses depois. Segundo os autores, a indicação de transplante no serviço caiu para menos da metade.[4]
Quem não se adaptou à lente rígida
Desconforto, lente que sai do lugar e feridas na ponta do cone são motivos comuns para trocar a rígida pela escleral, que não toca a córnea.[1] Mais detalhes sobre as outras opções estão no guia das lentes para ceratocone.
Depois do transplante de córnea
Mesmo com o transplante bem-sucedido, a córnea pode ficar com astigmatismo alto e irregular. Num estudo brasileiro com 27 olhos, a maioria transplantada por ceratocone, a visão média com a lente miniescleral ficou perto de 20/25.[5] Nos Estados Unidos, 91,7% de 48 olhos transplantados chegaram a 20/40 ou melhor com a escleral; ao mesmo tempo, 39,5% interromperam o uso, mais por dificuldade de colocar e tirar a lente.[6] Saiba mais sobre a cirurgia em transplante de córnea.
Olho seco grave e outras doenças da superfície do olho
O reservatório de soro funciona como um curativo líquido. A lente é usada em olho seco grave, síndrome de Stevens-Johnson, doença do enxerto contra o hospedeiro e penfigoide ocular.[1] Numa série da Mayo Clinic, 115 de 212 pacientes completaram a adaptação, e o objetivo do tratamento (conforto, proteção da superfície ou cicatrização) foi atingido em quase todos eles.[7] Nesses casos, a lente costuma entrar depois dos colírios, da desobstrução das glândulas das pálpebras e dos tampões nos canais da lágrima, e antes da cirurgia.[8]
Depois do anel intracorneano
O anel intracorneano (conhecido como anel de Ferrara) melhora o formato da córnea, mas muitas pessoas continuam precisando de lente. Num estudo espanhol, 27 olhos com anel receberam uma lente corneoescleral; a visão melhorou em relação aos óculos e a lente foi usada, em média, perto de 12 horas por dia durante um ano.[9]
Qual a diferença entre lente escleral, semiescleral e miniescleral?
A diferença está em onde a lente se apoia. A lente corneoescleral, também chamada de semiescleral, apoia uma parte na córnea e outra na esclera. A escleral propriamente dita se apoia inteira na esclera e pode chegar a 25 mm.[10] Dentro das esclerais, a literatura chamava de miniescleral a lente de 15 a 18 mm e de escleral grande a de mais de 18 mm; em 2019, a sociedade internacional de ensino de lente escleral passou a chamar todas de escleral, desde que passem por cima de toda a córnea e do limbo.[1]
| Tipo | Onde se apoia | Tamanho | Observação |
|---|---|---|---|
| Rígida corneana | Na córnea | 8 a 10 mm | Primeira tentativa na maioria dos casos de ceratocone |
| Semiescleral (corneoescleral) | Parte na córnea, parte na esclera | Entre a corneana e a escleral | Ainda encosta na córnea |
| Miniescleral | Só na esclera | 15 a 18 mm | Mais leve e mais fina |
| Escleral grande | Só na esclera | Mais de 18 mm, até 25 mm | Vão maior; usada em cones muito curvos e em doenças da superfície |
Fontes da tabela: Şengör e Aydın Kurna[1] e van der Worp e colaboradores.[10]
- 1Rígida corneana, 8 a 10 mm: fica dentro da córnea e se apoia nela (contorno dourado contínuo).
- 2Semiescleral (corneoescleral): passa um pouco da borda da córnea e apoia parte na córnea, parte na esclera (marinho tracejado).
- 3Miniescleral, 15 a 18 mm: apoia só na parte branca (dourado pontilhado).
- 4Escleral grande, mais de 18 mm, até 25 mm: apoia mais longe, na parte branca (marinho traço e ponto).
- 5Limbo, a borda entre a córnea e a parte branca.
Lentes de contato para ceratocone: rígidas, híbridas e esclerais
O vídeo compara as lentes usadas no ceratocone: a rígida, a híbrida e a escleral, que se apoia na parte branca do olho e forma um reservatório de líquido sobre a córnea. Na rede, as três são adaptadas nas cinco unidades, com lentes de prova.
Abrir no YouTubeVídeo produzido com inteligência artificial.
Lente escleral ou lente rígida?
As duas corrigem a irregularidade do ceratocone, e a escolha depende do olho. A revisão de Şengör e Aydın Kurna põe a rígida como primeira opção, por ser prática e segura e ter alto sucesso óptico.[1] Entre 778 profissionais que adaptam escleral, 42% apontaram a escleral como primeira escolha para córnea irregular e 20% a rígida corneana; a pesquisa ouviu só quem já trabalha com escleral.[8] Na prática, a escleral costuma entrar quando a rígida incomoda, não para no lugar ou não corrige bem. Na rede, o par da rígida custa R$ 1.980 à vista, e o da escleral, R$ 5.015 à vista (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação).
Como é a adaptação da lente escleral na rede?
A rede adapta a lente escleral nas 5 unidades: Tatuapé, Santana, Lapa, São Miguel Paulista e Guarulhos. Em geral quem adapta é a Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, médica oftalmologista, CRM-SP 148.173, RQE 59.216 (Oftalmologia), e outros médicos da rede também fazem a adaptação. Todas as unidades têm lentes de prova, e a adaptação está incluída no valor da lente.
Em geral, a adaptação da lente escleral segue estes passos:
- Consulta e exame da córnea. A topografia confirma o ceratocone e mostra o formato do cone. Na rede, o preparo é ficar 48 horas sem lente de contato de qualquer tipo, para a lente não deformar a córnea e falsear o mapa (corneal warpage). Preço e preparo estão na página da topografia corneana.
- Lente de prova cheia de soro, colocada no consultório. O médico avalia no microscópio o vão sobre a córnea, o apoio na parte branca e a visão.
- Encomenda da lente com os parâmetros do seu olho.
- Treino para colocar, tirar, limpar e encher a lente.
- Retornos para ajustes. Num levantamento internacional, a adaptação levou em média 3,8 consultas por paciente e 2,4 lentes encomendadas por olho.[2]
Qual o valor de uma lente escleral para ceratocone?
Na rede, o par da lente escleral custa R$ 5.015 à vista ou R$ 5.900 no cartão (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação). A adaptação está incluída nesse valor e não é cobrada à parte. Lentes esclerais podem quebrar: num estudo com 157 olhos, houve lente quebrada em 26,1% dos olhos ao longo do acompanhamento.[3] Os preços dos tratamentos do ceratocone estão no Instituto do Ceratocone.
Quantas horas pode ficar com a lente escleral?
Não há um número fixo; a escleral é lente de uso durante o dia, e o tempo é definido pelo médico na adaptação. Num levantamento com 259 usuários estabelecidos, a média foi de 12,8 horas por dia, com variação de 4 a 18 horas.[2] Num estudo holandês, a mediana foi de 16 horas por dia.[11] A lente deve ser tirada para dormir: qualquer uso de lente durante o sono aumenta o risco de infecção,[12] e a espessura da lente somada à camada de líquido pode reduzir a passagem de oxigênio para a córnea.[1]
Quais os cuidados e os riscos da lente escleral?
Por que a lente escleral embaça?
É uma queixa frequente: depois de algumas horas, o soro sob a lente fica turvo e a visão embaça. Num estudo multicêntrico, 25,8% dos usuários relataram o problema, que foi mais comum em quem tinha olho vermelho ou irritado.[13] Em outro, a chance de embaçar foi maior quando o vão entre a lente e a córnea era mais alto.[14] Quando acontece, siga a orientação recebida na adaptação; em geral, a conduta é tirar a lente, limpá-la e enchê-la de novo com soro. Se o embaçamento se repete, o médico revê o encaixe.
Falta de oxigênio na córnea
A lente é mais espessa e há uma camada de líquido entre ela e a córnea, o que pode reduzir o oxigênio que chega ao tecido. Por isso se recomenda material muito permeável ao oxigênio, lente fina e um vão sobre a córnea só do tamanho necessário.[1] Visão embaçada que não melhora ao trocar o soro e olho vermelho pedem avaliação.
Infecção
Num acompanhamento de 157 olhos por pelo menos um ano, houve 1 caso de ceratite infecciosa (0,6%).[3] Os fatores de risco que mais pesam são dormir com a lente, não lavar e secar as mãos e cuidar mal do estojo.[15]
Rotina de higiene
- Lave e seque as mãos antes de mexer na lente.[15]
- Encha a lente com soro fisiológico sem conservante, de preferência em frasco de uso único, que foi a escolha de 67% dos usuários no levantamento internacional.[2] Nunca use água de torneira nem soro caseiro.
- Limpe e guarde a lente com as soluções indicadas na adaptação.
- Limpe o estojo e troque-o no prazo orientado.[15]
- 1Lente cheia de soro fisiológico sem conservante, até a borda.
- 2Olhar para baixo, com o rosto voltado para o chão.
- 3Levar a lente na horizontal até o olho, sem derramar o soro.
- 4Soro limpo sob a lente: a visão fica nítida.
- 5Embaçou? Tirar a lente, limpar e encher de novo com soro, conforme a orientação recebida na adaptação.
Procure atendimento no mesmo dia se tiver dor que não passa, olho muito vermelho, sensibilidade forte à luz, secreção ou queda súbita da visão. Tire a lente, se conseguir, e leve-a com o estojo.
O SUS fornece lente escleral?
Não há fornecimento padronizado. Num parecer técnico de agosto de 2025, feito para um processo em Nova Iguaçu (RJ), o NATJUS, núcleo de assessoria técnica da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, registrou que a lente escleral não é padronizada pelo SUS no município e no estado, conforme consulta à tabela de procedimentos do SUS (SIGTAP), que não foi avaliada pela Conitec para o ceratocone e que não há protocolo clínico do Ministério da Saúde para a doença.[16] Na prática, o acesso depende do serviço público e da secretaria de saúde do seu município; pergunte a eles. O crosslinking, tratamento que busca frear a progressão, é oferecido pelo SUS desde 2017. Nenhuma unidade da rede atende pelo SUS.
Quando a lente escleral não basta?
A escleral corrige a visão, mas não freia o ceratocone. Num estudo, 14,6% dos olhos perderam parte da visão com a lente ao longo do acompanhamento, todos por avanço da doença.[3] Por isso o acompanhamento da córnea continua mesmo com boa visão, e o crosslinking entra quando os exames mostram progressão.
A lente também pode não resolver. No serviço belga de ceratocone grave, 8 de 75 olhos foram para transplante por visão insuficiente com a lente, intolerância ou dificuldade de manuseio, e 4 dos 51 que receberam a escleral desistiram por não conseguir colocar e tirar.[4] Nesses casos, há outras opções:
- O anel intracorneano. Na rede, ele é indicado para quem não tolera lente e tem córnea muito irregular, para quem não melhora a visão com lente e para quem ainda tem espessura de córnea suficiente para o implante. Mesmo com o anel, a pessoa pode continuar precisando de óculos ou lente; o objetivo é melhorar a qualidade da visão.
- O transplante de córnea, que pode ser necessário quando a córnea fica muito fina ou com cicatriz.[1] Veja o artigo sobre ceratocone avançado.
Perguntas frequentes
Posso dormir com a lente escleral?
A lente deve ser tirada para dormir: qualquer uso de lente durante o sono aumenta o risco de infecção,[12] e a espessura da lente somada à camada de líquido pode reduzir a passagem de oxigênio para a córnea.[1]
Referências
- Şengör T, Aydın Kurna S. Update on Contact Lens Treatment of Keratoconus. Turk J Ophthalmol. 2020;50(4):234-244. DOI: 10.4274/tjo.galenos.2020.70481. PMID: 32854468.
- Schornack MM, Fogt J, Nau A, Nau CB, Harthan JS, Cao D, Shorter E. Scleral lens prescription and management practices: Emerging consensus. Cont Lens Anterior Eye. 2023;46(1):101501. DOI: 10.1016/j.clae.2021.101501. PMID: 34456112.
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- Núcleo de Assessoria Técnica em Ações de Saúde (NATJUS), Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. Parecer Técnico/SES/SJ/NATJUS nº 3023/2025 (lente de contato escleral para ceratocone). Rio de Janeiro; 2025. Disponível em: portaltj.tjrj.jus.br.
Revisão médica: Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, médica oftalmologista, CRM-SP 148.173, RQE 59.216 (Oftalmologia). Revisado em AAAA-MM-DD. Conteúdo educativo; não substitui a consulta, o exame dos olhos e a orientação individual do seu médico.
Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.