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Saúde Ocular

Visão monocular: o que é, causas, laudo e o que diz a lei

Publicado em 17 de outubro de 2026 Atualizado em 17 de outubro de 2026 Revisão médica: 17 de outubro de 2026 8 min de leitura Dr. Fernando Macei Drudi
Ilustração 3D de um médico de jaleco branco conversando num consultório com uma mulher que tem um dos olhos coberto por uma névoa; entre os dois, o desenho de um olho.
Dr. Fernando Macei Drudi
Autor Médico
Dr. Fernando Macei Drudi
CRM-SP 139.300 | RQE 50.645

Resumo em linguagem simples

Visão monocular é quando a pessoa enxerga, na prática, só com um olho: o outro tem visão muito baixa, campo visual muito estreito ou foi perdido, sem melhora com óculos, lentes ou cirurgia. As causas mais comuns são ambliopia não tratada na infância, trauma, glaucoma avançado, doenças da retina e do nervo óptico, infecções com cicatriz e catarata não operada. Com um olho só, perde-se a noção fina de profundidade e parte do campo visual; a maioria se adapta bem, mas o olho bom passa a merecer proteção redobrada. A Lei 14.126/2021 classifica a visão monocular como deficiência visual; o enquadramento em benefícios depende de avaliação biopsicossocial e de laudo com a acuidade de cada olho com correção, o campo visual e a causa.

CID-10: H54.4 — Cegueira em um olho; H54.5 — Visão subnormal em um olho Ver todos os artigos de Saúde Ocular
Saúde ocular · Visão e direitos Dr. Fernando Macei Drudi · médico oftalmologista · CRM-SP 139.300 · RQE 50.645

Visão monocular é quando uma pessoa enxerga, na prática, só com um olho: o outro tem visão muito baixa ou nenhuma, e isso não melhora com óculos, lentes de contato ou cirurgia. Desde 2021, a lei brasileira classifica essa condição como deficiência visual. Com um olho só, perde-se a noção fina de profundidade (estereopsia) e parte do campo visual, mas a maioria das pessoas se adapta e leva uma vida normal.[1] O que muda é o cuidado com o olho que enxerga: qualquer sintoma nele vira urgência. Para perícias e benefícios, o laudo oftalmológico precisa trazer a acuidade de cada olho com a melhor correção, o campo visual, a causa e desde quando existe; quem decide o enquadramento é a perícia de cada órgão.

Pontos-chave

  • Visão monocular é perda grave e definitiva da visão de um olho; um olho com grau alto que enxerga bem com óculos não é visão monocular.
  • Causas comuns: ambliopia não tratada na infância, trauma, glaucoma avançado, doenças da retina e do nervo óptico, infecções com cicatriz e catarata não operada. Várias delas têm tratamento quando descobertas cedo.
  • Quem perde um olho perde a estereopsia, mas o cérebro usa outras pistas de profundidade; estudos de quem teve um olho removido mostram adaptação e vida normal.[1]
  • Perda recente de um olho pede um período de reabilitação e orientação: proteção do olho bom, adaptação em escadas, trânsito e trabalho.[2]
  • Ao dirigir, a visão monocular aumenta o tempo de reação e o risco de colisão em situações críticas, o que explica os critérios da perícia de trânsito.[3]
  • Perda súbita da visão no olho que enxerga, mesmo passageira, é emergência: pode ser oclusão de artéria da retina ou aviso de AVC.[4]

O que é visão monocular

O olho que enxerga pode ter visão normal; o outro tem acuidade visual muito reduzida mesmo com a melhor correção, ou campo visual muito estreito, ou foi perdido. Em muitos casos a pessoa se adaptou tão bem que só percebe a diferença em situações específicas: estacionar, descer escada, pegar um objeto que vem em sua direção.

Na Classificação Internacional de Doenças, o quadro costuma ser registrado como H54.4 (cegueira em um olho) ou H54.5 (visão subnormal em um olho), conforme o grau de perda; o código não substitui a descrição clínica no laudo.

Causas mais comuns

  • Ambliopia ("olho preguiçoso"): a causa mais frequente em adultos jovens. O olho não desenvolveu a visão na infância, por estrabismo, grau muito diferente entre os olhos ou catarata congênita, e não foi tratado a tempo. Veja ambliopia.
  • Trauma: perfuração, pancada forte ou queimadura química que lesou a córnea, o cristalino, a retina ou o nervo óptico.
  • Glaucoma avançado em um olho, com perda do campo visual.
  • Doenças da retina: descolamento de retina não tratado, oclusão de veia ou artéria, degeneração macular, retinopatia diabética avançada.
  • Doenças do nervo óptico: neurite, neuropatia isquêmica, atrofia.
  • Infecções e inflamações: toxoplasmose ocular com cicatriz central, uveítes, ceratites com cicatriz na córnea.
  • Catarata não operada em um olho, por muito tempo.
  • Tumores (como o retinoblastoma na infância) e remoção do olho (enucleação).

Algumas dessas causas têm tratamento quando descobertas cedo: catarata, descolamento de retina, glaucoma e ambliopia na infância. Por isso o primeiro passo diante de um olho que "enxerga pouco" é a consulta, não o laudo.

O que muda no dia a dia

Com um olho só, a pessoa perde a estereopsia, a noção fina de profundidade que depende da comparação entre as duas imagens. O cérebro compensa com outras pistas (tamanho, sombra, perspectiva, movimento), e a maioria das pessoas se adapta bem com o tempo. Uma revisão dos estudos com pessoas que tiveram um olho removido mostra mudanças sutis na visão do olho restante e conclui que elas levam vida normal, sem limitação pela falta da visão binocular.[1] O campo visual também fica menor do lado do olho perdido, o que exige virar mais a cabeça ao atravessar a rua ou dirigir.

Quando a perda é recente, especialmente em adultos, há um período de adaptação em que escadas, degraus, servir líquidos e estacionar ficam mais difíceis. Programas de reabilitação para visão monocular adquirida existem justamente para orientar essa fase: treino de pistas de profundidade, organização do ambiente e apoio para aceitar a mudança.[2]

O ponto mais importante é a proteção do olho bom. Quem tem visão monocular deve usar óculos de proteção em esportes, trabalhos com ferramentas e produtos químicos, e procurar o oftalmologista imediatamente diante de qualquer sintoma no olho que enxerga: visão embaçada, moscas volantes novas, flashes de luz, dor ou vermelhidão. Um problema que seria tratável com calma em quem tem dois olhos vira urgência quando só há um. Perda súbita da visão, mesmo que passe em minutos, pode ser oclusão de artéria da retina ou aviso de AVC e exige atendimento imediato.[4]

Dirigir com visão monocular

A legislação de trânsito permite a habilitação nas categorias A e B para quem tem visão monocular, desde que o olho que enxerga atinja a acuidade mínima exigida no exame de aptidão física e mental e o campo visual esteja dentro do limite. As categorias profissionais (C, D e E) não admitem visão monocular. A avaliação é feita na perícia do Detran, com relatório do oftalmologista; a regra vigente está na Resolução do CONTRAN que trata do exame de aptidão física e mental, e vale conferir a versão atual no momento da renovação.

Esses critérios têm base: num experimento com 75 pilotos e estudantes, a visão monocular simulada aumentou o tempo de reação em 64 a 126 milissegundos e multiplicou por 2 a 6 o risco de colisão diante de um carro que invadia a trajetória, conforme a situação.[3] Na prática, quem dirige com um olho compensa com mais atenção aos espelhos e virando a cabeça, e evita situações de visibilidade ruim.

O que o laudo oftalmológico precisa ter

Para perícia do INSS, concursos, isenções ou vagas reservadas, a pessoa leva um laudo do oftalmologista. Um laudo completo costuma trazer:

  1. Acuidade visual de cada olho, com a melhor correção possível, na notação usada no Brasil (20/20, 20/200 etc.) e, se possível, também em decimal.
  2. Campo visual de cada olho, com o exame de campimetria anexado quando houver (veja campo visual).
  3. O diagnóstico que causou a perda (com o código da CID) e desde quando ela existe.
  4. A informação de que a perda é definitiva e de que não há tratamento que recupere a visão daquele olho.
  5. Data, assinatura, CRM e carimbo do médico.

O laudo descreve a condição; quem decide o enquadramento é a perícia de cada órgão. Isso evita uma frustração comum: o paciente chega com um papel que diz "visão monocular" e nada mais, e a perícia pede o laudo de novo, com os números.

O que diz a lei

A Lei 14.126, de 22 de março de 2021, tem um artigo só: "Fica a visão monocular classificada como deficiência sensorial, do tipo visual, para todos os efeitos legais." O parágrafo único manda aplicar à visão monocular a avaliação biopsicossocial prevista no Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015).

Na prática, isso significa que a pessoa com visão monocular pode pleitear o que a legislação assegura às pessoas com deficiência: vagas reservadas em concursos e empresas, atendimento prioritário e, conforme o caso e os demais requisitos de cada benefício, aposentadoria da pessoa com deficiência e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Em 2025, a Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais Federais fixou que a caracterização da deficiência por visão monocular, para fins previdenciários, exige avaliação biopsicossocial, e não apenas o diagnóstico (Tema 378). Isenções de impostos na compra de veículo seguem regras próprias de cada estado e da Receita Federal, que podem exigir critérios de acuidade diferentes.

Para orientação sobre benefícios, o caminho é o INSS, a Defensoria Pública ou um advogado. O papel do oftalmologista é fazer o diagnóstico, tratar o que tem tratamento e documentar a perda com precisão.

Perguntas frequentes

Enxergar pouco de um olho já é visão monocular?

Depende do quanto. Visão monocular é perda grave e definitiva: acuidade muito baixa mesmo com correção, campo visual muito reduzido ou ausência do olho. Um olho com grau alto, mas que enxerga bem com óculos, não é visão monocular.

Visão monocular tem cura?

Depende da causa. Catarata, descolamento de retina recente e glaucoma no início têm tratamento. Cicatrizes antigas na retina ou no nervo óptico e ambliopia em adultos, em geral, não recuperam a visão. Só o exame diz em qual grupo você está.

Quem tem visão monocular pode dirigir?

Nas categorias A e B, sim, se o olho bom atingir a acuidade e o campo visual mínimos da perícia do Detran. Categorias profissionais, não.

Qual é o CID da visão monocular?

H54.4 (cegueira em um olho) ou H54.5 (visão subnormal em um olho), conforme o grau de perda. O laudo precisa dos números de acuidade e campo visual, não só do código.

Criança com um olho que enxerga pouco: dá tempo de tratar?

Muitas vezes sim. A ambliopia responde ao tratamento (tampão, óculos) principalmente nos primeiros anos de vida, e o teste do olhinho e a consulta pré-escolar existem para pegar isso cedo.

Referências

  1. Steeves JKE, González EG, Steinbach MJ. Vision with one eye: a review of visual function following unilateral enucleation. Spat Vis. 2008;21(6):509-529. DOI: 10.1163/156856808786451426. PMID: 19017480.
  2. Ihrig C, Schaefer DP. Acquired Monocular Vision Rehabilitation program. J Rehabil Res Dev. 2007;44(4):593-597. DOI: 10.1682/jrrd.2006.06.0071. PMID: 18247256.
  3. Adrian J, Le Brun J, Miller NR, et al. Implications of monocular vision for racing drivers. PLoS One. 2019;14(12):e0226308. DOI: 10.1371/journal.pone.0226308. PMID: 31841526.
  4. Vodopivec I, Cestari DM, Rizzo JF. Management of Transient Monocular Vision Loss and Retinal Artery Occlusions. Semin Ophthalmol. 2017;32(1):125-133. DOI: 10.1080/08820538.2016.1228417. PMID: 27780399.

Revisão médica: Dr. Fernando Macei Drudi (CRM-SP 139.300, RQE 50.645), em 17 de outubro de 2026. Como revisamos o conteúdo.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.

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