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Ceratocone: o que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

Publicado em 01 de maio de 2026 · Atualizado em 22 de outubro de 2026 · 19 min de leitura

Revisão médica: Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, médica oftalmologista, CRM-SP 148.173, RQE 59.216 (Oftalmologia), em 22 de outubro de 2026. Como revisamos

Ilustração 3D de paciente em exame de refração com mapa de topografia e corte esquemático da córnea para o artigo sobre ceratocone.
Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida

Autora

Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida

CRM-SP 148.173 | RQE 59.216

Em resumo

O ceratocone afina e deforma a córnea e deixa a visão borrada e distorcida. A tomografia de córnea mostra a doença cedo e acompanha a piora. O crosslinking freia a doença, e óculos, lentes, anel ou transplante corrigem a visão.

CID-10: H18.6 — Ceratocone Ver todos os artigos de Ceratocone
Neste artigo

Resposta rápida: Ceratocone é uma doença da córnea em que ela afina e se curva para fora, em forma de cone, o que deixa a visão borrada e distorcida. Costuma aparecer na adolescência ou no começo da vida adulta e atinge de cerca de 1 em cada 700 pessoas a 1 em cada 84, conforme a população e o exame usado[1, 2]. O crosslinking freia a piora da córnea, e a visão é corrigida com óculos, lentes especiais, anel intracorneano ou, nos casos avançados, transplante.

As quatro dúvidas mais comuns na primeira consulta

Na rede, quatro perguntas aparecem mais quando alguém recebe o diagnóstico: se o ceratocone tem cura, se pode deixar cego, se sempre leva ao transplante e se é genético. As respostas curtas estão aqui, e cada uma tem um artigo próprio com os detalhes.

Cura, no sentido de devolver à córnea o formato normal, ainda não existe, mas o crosslinking freia a piora: no ensaio KERALINK, a doença avançou em 7% dos olhos tratados e em 43% dos olhos só acompanhados[4], e numa série alemã o efeito se manteve por 10 anos[6]. Veja o que a ciência diz sobre a cura do ceratocone.

O ceratocone raramente leva à cegueira: ele deforma a córnea e não atinge a retina nem o nervo óptico. O risco real é perder muita nitidez num olho, o que lentes especiais e, se preciso, o transplante costumam recuperar. Numa série americana acompanhada em média por 13,8 anos, 73% dos olhos transplantados por ceratocone enxergavam 20/40 ou melhor com óculos[7]. Leia se o ceratocone é grave e quando ele ameaça a visão.

A maioria das pessoas com ceratocone nunca precisa de transplante: no estudo americano CLEK, feito antes do crosslinking, 12% de 1.065 pacientes fizeram transplante em pelo menos um olho em 8 anos[8], e uma revisão Cochrane cita 10% a 15%[9]. Depois que o crosslinking se espalhou pela Holanda, os transplantes por ceratocone em pessoas com menos de 50 anos caíram cerca de 25%[10]. Os graus da doença e o momento do transplante estão em ceratocone avançado.

O ceratocone tem participação genética, mas a herança não segue uma regra simples, e não há teste genético validado para uso de rotina: as variantes comuns já encontradas explicam só 12,5% da parte genética da doença[11]. Entre pais, irmãos e filhos de pacientes, os estudos encontraram ceratocone em 3,3% a 12,3% dos examinados[12, 13]; a maioria dos parentes não tem a doença, mas todos devem examinar a córnea, mesmo sem sintomas. Mais em ceratocone é hereditário?

O que é ceratocone?

Ceratocone é uma doença da córnea, a camada transparente da frente do olho, por onde a luz entra: uma área dela, na região central ou um pouco abaixo, afina e se projeta para fora, em forma de cone, e a visão fica borrada e distorcida. A superfície, que deveria ser lisa como uma cúpula, fica irregular, e a luz passa a se espalhar em vez de formar uma imagem nítida. Daí vêm a miopia e o astigmatismo irregular, que os óculos corrigem só em parte[14].

A doença atinge os dois olhos, quase sempre de forma desigual: um olho pode estar bem mais avançado que o outro[14]. Ela não é infecciosa e não passa de uma pessoa para outra.

A frequência depende de como se procura. Uma metanálise de 29 estudos, com mais de 7 milhões de pessoas, estimou cerca de 1,4 caso por 1.000 habitantes[1]. Quando a córnea de todos os participantes é examinada com tomografia, o número sobe: entre jovens de 20 anos na Austrália, 1 em cada 84 tinha ceratocone[2]. No Brasil, entre 521 funcionários e alunos de um hospital universitário do Rio de Janeiro, nenhum com diagnóstico anterior, a tomografia achou ceratocone em 1,0% dos olhos e suspeita em mais 4,2%[15].

Córnea normal, em corte lateral do olhoEsquema do olho visto de lado, com a frente voltada para a esquerda. A córnea é uma cúpula lisa, com espessura parecida no centro e na borda. Três raios de luz paralelos atravessam a córnea, a pupila e o cristalino e se encontram num único ponto da retina, no fundo do olho.
ACórnea normal
Ceratocone, em corte lateral do olhoO mesmo olho com ceratocone. Uma região da córnea, um pouco abaixo do centro, fica mais fina e cede para a frente, em forma de cone. Os três raios de luz já não se encontram: cada um chega a um ponto diferente da retina, e a imagem fica borrada e distorcida.
BCeratocone
  1. 1Córnea normal. A camada transparente da frente do olho forma uma cúpula lisa.
  2. 2Espessura parecida no centro e na borda da córnea (traços dourados).
  3. 3Um único foco. A luz que entra se encontra num só ponto da retina, e a imagem fica nítida.
  4. 4Afinamento. Uma área da córnea, no centro ou um pouco abaixo dele, fica mais fina.
  5. 5Curvatura irregular. A parte mais fina cede para a frente e a córnea ganha a forma de um cone.
  6. 6Vários pontos na retina. A luz se espalha em vez de se encontrar num ponto, e a imagem fica borrada e distorcida.
Figura 1. Córnea normal e córnea com ceratocone, em corte lateral do olho. Ilustração esquemática, fora de escala; não é o exame de nenhum paciente.Fonte: desenho da Drudi e Almeida a partir da revisão de Santodomingo-Rubido e colaboradores (referência 14).

Quem tem mais risco de ter ceratocone?

O risco é maior em quem tem parente de primeiro grau com a doença, em quem coça os olhos com frequência e em quem tem alergia, asma ou eczema. Na metanálise mundial, a chance de ceratocone foi 6,4 vezes maior com história familiar e 3,1 vezes maior com o hábito de coçar os olhos[1]. Uma revisão dedicada só ao ato de coçar chegou a uma chance 6,5 vezes maior, a partir de seis estudos de caso-controle que não permitem afirmar que coçar causa a doença[5], e no estudo brasileiro a associação foi ainda mais forte[15]. A relação entre coceira, alergia e piora está no artigo sobre coçar os olhos e ceratocone.

Na síndrome de Down, um estudo com 190 participantes a partir de 10 anos encontrou ceratocone em 26% deles[16]. A apneia obstrutiva do sono também aparece associada ao ceratocone numa metanálise de 2020[17]. A idade pesa: em geral, o ceratocone aparece na adolescência ou no começo da vida adulta e avança mais até os 30 e poucos anos[14].

Como enxerga uma pessoa que tem ceratocone?

A imagem fica borrada e distorcida, como vista através de um vidro ondulado. Linhas retas parecem tortas, as letras ganham uma sombra ou um contorno duplo, e as luzes à noite viram borrões com halos e rastros. A imagem dupla aparece mesmo com o outro olho fechado. Como os dois olhos costumam estar em fases diferentes, muita gente só percebe o problema quando tampa o olho melhor.

No começo pode não haver sintoma, ou só um cansaço visual que a pessoa atribui às telas. Dor não faz parte do ceratocone comum. A exceção é a hidropsia, explicada mais abaixo.

Cena noturna vista com nitidezUma rua à noite, com um poste, uma placa com o nome da rua e um carro ao longe. As letras da placa são nítidas e os faróis e a lâmpada aparecem como pontos de luz.
AVisão nítida
A mesma cena noturna, como pode ser vista com ceratoconeA mesma rua. As letras da placa aparecem borradas e duplicadas, com uma sombra deslocada para baixo. Os faróis e a lâmpada viram borrões com halos e rastros de luz.
BCeratocone (simulação)
  1. 1Placa legível. As letras têm contorno firme.
  2. 2Faróis como pontos. Cada luz aparece no lugar certo, sem borrão.
  3. 3Letras duplicadas. Surge um contorno fantasma, aqui deslocado para baixo, que não some com o outro olho fechado.
  4. 4Halos e rastros. À noite, faróis e lâmpadas viram borrões com anéis e riscos de luz.
Figura 2. Como uma pessoa com ceratocone pode enxergar uma rua à noite. Simulação educativa; a distorção varia de pessoa para pessoa e de um olho para o outro.Fonte: simulação da Drudi e Almeida a partir dos sintomas descritos no texto (prática da rede).

Ceratocone: principais sintomas, como é feito o diagnóstico e opções de tratamento

Em menos de dois minutos, o vídeo mostra os sintomas mais comuns do ceratocone, como visão borrada que não melhora com óculos novos, sombras nas letras e reflexos de luz à noite, e explica como o diagnóstico usa a topografia e a tomografia da córnea comparadas ao longo do tempo.

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Vídeo produzido com inteligência artificial.

Quais sinais pedem um exame da córnea?

Os sinais mais comuns são trocar de óculos mais de uma vez em pouco tempo, ver o astigmatismo aumentar de novo e continuar enxergando abaixo do esperado com óculos novos.

Procure um médico oftalmologista para examinar a córnea se você ou seu filho:

  • trocou de óculos mais de uma vez em pouco tempo, ou ouviu que o astigmatismo aumentou de novo;
  • fez óculos novos e continuou enxergando abaixo do esperado;
  • enxerga bem pior com um olho do que com o outro;
  • vê imagem dupla ou fantasma com um olho só;
  • coça os olhos com frequência ou tem alergia ocular;
  • tem pai, mãe, irmão ou filho com ceratocone;
  • vai fazer cirurgia para tirar o grau, porque a avaliação da córnea faz parte do pré-operatório.

Os erros que atrasam o diagnóstico

Na experiência da rede, quatro atitudes atrasam o diagnóstico com frequência. A primeira é coçar os olhos, hábito ligado ao aparecimento da doença[1]. A segunda é achar normal trocar de óculos toda hora: a receita mede o grau, e só o exame da córnea mostra a forma dela. A terceira é não passar por um médico oftalmologista, que examina a córnea na lâmpada de fenda e pede a topografia ou a tomografia quando há suspeita. A quarta é deixar o exame para depois.

Quanto mais jovem a pessoa e mais curva a córnea, mais depressa o ceratocone costuma avançar: a metanálise de 11.529 olhos recomenda acompanhamento mais próximo e indicar o crosslinking mais cedo em quem tem menos de 17 anos e curvatura máxima acima de 55 dioptrias[18]. Além disso, o crosslinking padrão pede uma córnea com pelo menos 400 micrômetros de espessura depois da retirada do epitélio, para proteger as células da face de trás da córnea[19, 20]. Quem chega tarde, com a córnea muito fina, pode perder essa opção ou precisar de um protocolo adaptado[20].

Como é feito o diagnóstico do ceratocone?

O diagnóstico junta a conversa, a medida da visão e do grau, o exame da córnea na lâmpada de fenda (um microscópio de consultório) e os mapas da córnea. Nos casos avançados, o médico já vê sinais da doença na lâmpada de fenda. No começo, só os mapas mostram a alteração. O consenso mundial sobre ceratocone de 2026 recomenda começar pela conversa, pela medida da visão e pelo exame na lâmpada de fenda, e diz que combinar mais de um exame de imagem torna o diagnóstico mais preciso[21]. Nos casos iniciais, um número isolado não basta para fechar o diagnóstico[14].

Topografia e tomografia são a mesma coisa?

Não. A topografia de córnea mede a curvatura da face da frente da córnea e mostra o resultado num mapa colorido. A tomografia de córnea (Pentacam) fotografa a córnea em cortes e mede também a face de trás e a espessura em cada ponto. Alterações na face de trás e no mapa de espessura aparecem antes das alterações da face da frente, e por isso a tomografia identifica a forma inicial com mais precisão[3]. Pentacam é o nome do aparelho; o exame se chama tomografia de córnea. Os dois exames têm artigos próprios: topografia de córnea e tomografia de córnea.

Exames da córnea na rede: valores particulares de 2026, pelos dois olhos; valor final confirmado na avaliação
ExameO que medeOnde a rede fazNa unidadePix pelo site
Topografia de córneaCurvatura da face da frenteNas 5 unidadesR$ 110 à vista; R$ 140 no cartãoR$ 77
Tomografia de córneaCurvatura das duas faces e espessura ponto a pontoSó no MIRA, só particularR$ 260 à vista; R$ 363 no cartão, em até 10 vezesR$ 220
PaquimetriaEspessura da córneaTatuapé e LapaR$ 110 à vista; R$ 140 no cartãoR$ 77

Os demais exames e valores estão na tabela de preços.

Na rede, a orientação é ficar 48 horas sem lente de contato, de qualquer tipo (gelatinosa, rígida, híbrida ou escleral), antes da topografia e da tomografia: a lente deforma a córnea por algum tempo (corneal warpage) e falseia o mapa. Quem usa lente rígida há anos e vai planejar uma cirurgia pode precisar de um intervalo maior, definido pelo médico: num estudo com candidatos a cirurgia refrativa, 12% tinham deformação causada pela lente, e ela levou semanas para sumir[22]. Para a paquimetria, bastam 24 horas sem lente.

Mapa de curvatura com desenho redondoMapa circular quase uniforme: a córnea é plana na periferia e tem uma área central redonda um pouco mais curva, sem diferença entre os eixos.
ARedondo
Mapa de curvatura em gravata-borboleta simétricaDuas metades iguais, uma em cima e outra embaixo, alinhadas numa linha reta: o desenho do astigmatismo regular.
BGravata-borboleta simétrica (astigmatismo regular)
Mapa de curvatura em gravata-borboleta assimétricaA metade de baixo é bem maior e mais curva que a de cima, com uma área mais curva ainda abaixo do centro: desenho que levanta suspeita de ceratocone.
CGravata-borboleta assimétrica, mais curva embaixo
  1. 1Azul-claro: mais plano. No aparelho, cores frias (azul e verde).
  2. 2Dourado: mais curvo. Quanto mais forte, mais curvo; o mais curvo aparece hachurado. No aparelho, cores quentes (laranja e vermelho).
  3. 3Metade de baixo maior e mais curva que a de cima.
Figura 3. Como o ceratocone aparece no mapa de curvatura da córnea, na mesma escala de cor. A e B são padrões de córnea regular; em C, típico do ceratocone, a área mais curva fica abaixo do centro. As linhas finas cruzam no centro da córnea. Esquema didático, sem valores; a escala de cores muda de um aparelho para outro e não é o exame de nenhum paciente.Fonte: desenho da Drudi e Almeida a partir da revisão de Belin e Ambrósio (referência 3).

O que é ceratocone subclínico, ou forma frustra?

É o ceratocone numa fase tão inicial que a visão e o exame na lâmpada de fenda ainda parecem normais; só os mapas da córnea mostram a alteração. Ele pesa sobretudo para quem quer operar o grau. O LASIK e outras cirurgias que afinam a córnea podem desencadear uma ectasia (veja mais abaixo) quando a córnea já é frágil, e um padrão anormal na topografia é um dos fatores do cálculo de risco antes dessas cirurgias[23]. A forma subclínica também é comum em parentes de quem tem ceratocone: no rastreio feito com tomografia, 35% dos parentes de primeiro grau tinham sinais leves, além dos 12% com a doença[13].

Como saber se o ceratocone está piorando?

Para saber se o ceratocone está piorando, o médico compara exames da córnea feitos ao longo do tempo. Pelo consenso mundial sobre ceratocone de 2026, os sinais principais são a face da frente da córnea ficar mais curva, a face de trás ficar mais curva e o ponto mais fino da córnea afinar, desde que a mudança seja consistente e maior que a variação natural do exame; a piora da visão também conta, mas não é obrigatória. Como essa variação natural é maior nos ceratocones mais avançados, o tamanho da mudança que confirma a piora depende do estágio da doença[21]. Na prática, a comparação é feita de preferência no mesmo aparelho, e um estudo de repetibilidade da tomografia mostrou que a variação entre um exame e outro é maior justamente nos ceratocones moderados[24].

Num estudo com 906 pacientes, a escolha do critério mudou o resultado: quando bastava um único número, muito mais olhos foram marcados como progressivos do que se vê na clínica, onde 20% a 30% dos casos progridem; quando o critério combinava dois parâmetros, o resultado ficou perto desse patamar[25].

Na rede, quem tem ceratocone refaz a tomografia de córnea a cada 4 meses, e o crosslinking é indicado quando a piora se confirma. Num estudo da Nova Zelândia, 39,6% dos olhos pioraram durante a espera pelo crosslinking, que durou em média 153 dias[26], o que ajuda a entender o intervalo curto. O médico ajusta o intervalo conforme a idade e os exames de cada pessoa.

Curvatura das duas faces da córnea em dois examesCorte ampliado da córnea, com a frente voltada para a esquerda. O contorno pontilhado é o exame anterior; o contorno contínuo, o exame atual. No exame atual, a região do cone, um pouco abaixo do centro, avançou para a frente: a face da frente e a face de trás ficaram mais curvas.
ACurvatura das duas faces
Espessura no ponto mais fino em dois examesO mesmo corte. A face da frente não mudou; a face de trás avançou no ponto mais fino, um pouco abaixo do centro, e a córnea ali ficou mais fina. O traço dourado mostra a espessura atual; o pontilhado, onde ficava a face de trás no exame anterior.
BEspessura no ponto mais fino
  1. 1Face da frente mais curva. A região do cone avança e a curvatura da frente aumenta.
  2. 2Face de trás mais curva. A tomografia mede também a face de trás, que costuma mudar cedo.
  3. 3Ponto mais fino afinou. A espessura no ponto mais fino diminuiu entre os exames.
  4. 4Exame anterior (traço pontilhado).
  5. 5Exame atual (traço contínuo).
Figura 4. Como a piora do ceratocone é definida: mudança consistente, maior que a variação do próprio exame, na face da frente, na face de trás ou no ponto mais fino. A piora da visão também conta, mas não é obrigatória. Esquema fora de escala; não é o exame de nenhum paciente.Fonte: desenho da Drudi e Almeida a partir do consenso mundial sobre ceratocone, 2ª edição (Gomes e colaboradores, Cornea, 2026; referência 21).

O que faz piorar o ceratocone?

Os fatores mais bem documentados são a idade e o formato da córnea no diagnóstico: quem descobre a doença mais jovem e com a córnea mais curva tende a piorar mais[18]. Coçar os olhos é o fator ligado à doença que depende de você[1, 5], e por isso tratar a alergia e a coceira faz parte do cuidado com o ceratocone.

Em geral, o ceratocone avança mais até os 30 e poucos anos; depois tende a desacelerar, mas pode continuar: num estudo com adultos acima de 30 anos, 19% a 26% dos olhos pioraram em algum parâmetro de curvatura em cerca de 4 anos[27]. Por isso o acompanhamento continua depois dos 30. A idade em que a doença costuma estabilizar está explicada em ceratocone tem cura?

Como o ceratocone é classificado?

Os médicos classificam o ceratocone em estágios: a classificação clássica, de Amsler-Krumeich, olha principalmente a face da frente da córnea, e a ABCD, de 2016, acrescenta a face de trás, a espessura no ponto mais fino e a visão, do estágio 0 ao 4[28]. O consenso mundial de 2026 usa a ABCD como base de uma escala mais simples, em leve, moderado e grave[21]. O estágio ajuda a escolher a correção da visão, mas não informa se a doença está piorando. Os estágios e o que muda em cada um estão em ceratocone avançado: graus e transplante.

Como é o tratamento do ceratocone?

O tratamento tem dois objetivos que andam juntos: impedir que a córnea continue a se deformar e fazer você enxergar bem com a córnea que tem. O crosslinking cuida do primeiro. Óculos, lentes de contato, anel intracorneano e transplante cuidam do segundo[14].

Opções de tratamento do ceratocone e para que serve cada uma
OpçãoPara que serveQuando costuma entrarOnde na rede
CrosslinkingFrear a piora; não tira o grauPiora documentada; em criança, já no diagnósticoMIRA
ÓculosCorrigir a visãoFases iniciais, com astigmatismo ainda regularConsulta nas 5 unidades
Lente rígida, híbrida ou escleralCorrigir a visão com uma superfície regular na frente da córneaQuando os óculos não bastamAdaptação nas 5 unidades
Anel intracorneanoRegularizar a curvatura e melhorar a qualidade da visãoIntolerância à lente com córnea muito irregular, ou visão que não melhora com a lenteMIRA
Transplante de córneaSubstituir a córnea doenteCicatriz na córnea ou visão que nenhuma lente corrigeMIRA
Crosslinking: o tratamento que freia a doençaCorte ampliado da córnea com ceratocone. Setas tracejadas douradas representam a luz ultravioleta chegando pela frente, depois do colírio de riboflavina. Na metade da frente do estroma, pequenos traços dourados ligam as lamelas de colágeno: são as novas ligações que deixam a córnea mais firme.
AFrear a doença
Os quatro recursos que melhoram a visãoQuatro quadros com a frente do olho em corte e ceratocone. No primeiro, uma lente de óculos à frente do olho. No segundo, uma lente de contato rígida apoiada à frente da córnea. No terceiro, dois segmentos de anel dentro da córnea, vistos em corte como pequenos triângulos. No quarto, linhas tracejadas douradas marcam o disco central da córnea que o transplante substitui.
BMelhorar a visão
  1. 1Crosslinking. Colírio de riboflavina e luz ultravioleta criam ligações novas entre as fibras de colágeno, e a córnea fica mais firme. Entra quando a piora é documentada; em criança, costuma entrar já no diagnóstico.
  2. 2Óculos. Bastam nas fases iniciais, enquanto o astigmatismo ainda é regular.
  3. 3Lente rígida, híbrida ou escleral. Cria uma superfície lisa à frente da córnea quando os óculos não bastam.
  4. 4Anel intracorneano. Segmentos dentro da córnea aplanam o centro; pode continuar sendo preciso usar óculos ou lente.
  5. 5Transplante de córnea. Troca a parte doente da córnea quando há cicatriz no centro ou nenhuma lente corrige a visão.
Figura 5. Os caminhos do tratamento do ceratocone: o crosslinking freia a doença (A) e os recursos de 2 a 5 melhoram a visão (B); cada degrau entra quando o anterior não basta, e o crosslinking pode ser combinado com qualquer um deles. Na rede, consulta e lentes nas 5 unidades; crosslinking, anel e transplante no MIRA. Esquema fora de escala; não é o exame de nenhum paciente.Fonte: desenho da Drudi e Almeida a partir da revisão de Santodomingo-Rubido e colaboradores (referência 14) e da prática da rede.

Crosslinking: o tratamento que freia a doença

O crosslinking usa colírio de riboflavina (vitamina B2) e luz ultravioleta para criar novas ligações entre as fibras de colágeno da córnea, que fica mais firme. No KERALINK, ensaio randomizado com 60 jovens de 10 a 16 anos com ceratocone em progressão, a doença avançou em 7% dos olhos tratados e em 43% dos olhos só acompanhados, em 18 meses[4]. O crosslinking não tira o grau nem dispensa os óculos ou a lente.

No MIRA, o protocolo padrão é o de Dresden, com retirada do epitélio (a camada mais superficial da córnea), e o médico pode ajustá-lo conforme o caso. O valor é R$ 4.300 por olho, à vista ou no cartão em até 10 vezes (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação), e inclui o procedimento e as consultas de pós-operatório, sem custo adicional. Os planos de saúde devem cobrir o procedimento quando o caso cumpre a diretriz de utilização nº 121 da ANS, que não tem limite de idade, e o SUS oferece o crosslinking desde 2017; as unidades da rede e o MIRA não atendem pelo SUS. Preço, recuperação e cobertura estão em crosslinking: preço e recuperação.

Óculos e lentes de contato

No começo, os óculos costumam bastar. Quando o astigmatismo fica irregular, a lente rígida, a híbrida e a escleral criam uma superfície lisa na frente da córnea e devolvem uma nitidez que os óculos não alcançam. Num estudo com 157 olhos, a visão média passou de cerca de 20/63 com óculos para perto de 20/25 com a lente escleral[29]. Num centro universitário americano, com 2.806 olhos, quem usava lente escleral ou rígida chegou menos ao transplante do que quem não usava lente; o estudo mostra uma associação e não prova que a lente evite o transplante[30]. As lentes não freiam a doença: no estudo dos 157 olhos, os 14,6% que perderam visão com a lente perderam por piora do ceratocone[29].

Na rede, as lentes rígida, híbrida e escleral são adaptadas nas 5 unidades, em geral pela Dra. Priscilla (outros médicos da rede também adaptam), com lentes de prova em todas as unidades. A adaptação já está incluída no valor da lente. Veja os tipos de lente para ceratocone e o artigo sobre lente escleral.

Anel intracorneano

O anel intracorneano (conhecido como anel de Ferrara) é formado por segmentos em arco implantados dentro da córnea, que aplanam a região central e reduzem o astigmatismo irregular[31]. Na rede, ele é indicado para quem não tolera a lente e tem a córnea muito irregular, ou para quem não melhora a visão com a lente, desde que a córnea tenha espessura suficiente para o implante. Mesmo com o anel, você pode continuar precisando de óculos ou de lente; o objetivo é melhorar a qualidade da visão. Sozinho, o anel não freia a doença[32]. No MIRA, o túnel é feito com laser de femtossegundo, e o valor é R$ 9.900 por olho, à vista ou no cartão em até 10 vezes (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação), com o procedimento e as consultas de pós-operatório incluídos, sem custo adicional. Detalhes em como funciona o anel intracorneano.

Transplante de córnea

O transplante substitui a córnea doente pela de um doador e fica para os casos com cicatriz na córnea ou com visão que nenhuma lente corrige. Há duas técnicas principais: o transplante penetrante, que troca a córnea inteira, e o lamelar anterior profundo (DALK), que troca as camadas da frente e preserva a camada interna do próprio paciente. Numa revisão Cochrane, a visão final foi parecida entre as duas, e a rejeição foi menos frequente com o DALK[9]. No MIRA são feitas todas as modalidades de transplante de córnea, inclusive o DALK e o penetrante. Mais detalhes no artigo geral sobre transplante de córnea.

Ceratocone em crianças e adolescentes: o que muda?

Na criança e no adolescente, o ceratocone tende a avançar mais depressa. Numa série com 59 olhos de pacientes de 9 a 19 anos, 88% pioraram, e os autores propuseram fazer o crosslinking logo após o diagnóstico[33]. O consenso europeu de 2026 sobre ceratocone pediátrico recomenda o crosslinking no diagnóstico, mesmo sem piora documentada[34]. Em menores de 18 anos com diagnóstico confirmado, o consenso mundial de 2026 também recomenda considerar o crosslinking já no diagnóstico, sem esperar a piora[21]. Na rede, em crianças, o crosslinking costuma ser indicado já no diagnóstico.

Mesmo tratada, a córnea da criança pode voltar a piorar: os estudos reunidos pelo consenso europeu relatam progressão depois do crosslinking em 4% a 35% dos casos[34]. Por isso o acompanhamento com tomografia continua depois do procedimento. Criança que coça muito os olhos, troca de óculos com frequência, enxerga pior de um olho ou tem parente com ceratocone deve examinar a córnea.

Ectasia depois de cirurgia refrativa e degeneração marginal pelúcida

Ectasia é o nome geral da córnea que afina e se deforma. O consenso mundial de 2026 separa o ceratocone de outras ectasias, como a degeneração marginal pelúcida e as ectasias secundárias, entre elas a que aparece depois de cirurgia refrativa[21]. A ectasia depois de LASIK ou de outra cirurgia para tirar o grau acontece, em geral, numa córnea que já tinha uma fragilidade não percebida; por isso a topografia e a tomografia fazem parte da avaliação antes dessas cirurgias[23]. A degeneração marginal pelúcida afina uma faixa na parte de baixo da córnea, perto da borda, e a tomografia, que cobre uma área maior da córnea, ajuda a diferenciá-la do ceratocone[3]. As duas são acompanhadas com os mesmos exames e, conforme o caso, tratadas com os mesmos recursos do ceratocone.

Quando procurar atendimento com urgência?

Procure atendimento no mesmo dia se o olho com ceratocone ficar de repente esbranquiçado ou muito embaçado, com dor, lacrimejamento ou sensibilidade à luz. Pode ser uma hidropsia aguda: uma ruptura da membrana de Descemet, uma das camadas de trás da córnea, deixa entrar o líquido do olho, e a córnea incha. Ela é mais comum em quem tem a córnea mais curva, coça os olhos ou tem alergia ocular[35]; num estudo com pessoas com síndrome de Down, afetou 14% dos participantes com ceratocone[16]. Trauma no olho e dor forte também pedem avaliação rápida.

Direitos de quem tem ceratocone

O reconhecimento como pessoa com deficiência depende de quanto a visão está comprometida, da avaliação médica e das regras de cada benefício, e por isso não há resposta única. As regras de PCD, isenções, aposentadoria e carteira de motorista estão em direitos de quem tem ceratocone. Quando um dos olhos fica com visão muito baixa, vale ler também o artigo sobre visão monocular.

Como é o acompanhamento do ceratocone na rede?

A consulta e a topografia são feitas nas cinco unidades: Tatuapé, Santana, Lapa, São Miguel Paulista e Guarulhos. A consulta particular custa R$ 180 à vista ou no Pix e R$ 200 no cartão (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação). A tomografia de córnea, o crosslinking, o anel e o transplante são feitos no MIRA Hospital Oftalmológico, hospital da própria rede. Na tomografia, você recebe as imagens no mesmo dia, e o exame fica disponível para baixar a qualquer momento na plataforma de resultados de exames. Quem tem ceratocone refaz a tomografia a cada 4 meses e volta antes se a visão piorar.

Os valores dos tratamentos estão no Instituto do Ceratocone, e o guia do tratamento do ceratocone em São Paulo resume o percurso. Para começar, marque uma consulta.

Referências

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Revisão médica: Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, médica oftalmologista, CRM-SP 148.173, RQE 59.216 (Oftalmologia). Revisado em AAAA-MM-DD. Conteúdo educativo; não substitui a consulta, o exame dos olhos e a orientação individual do seu médico.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.