Em resumo
No ceratocone, os óculos ajudam no começo, mas a córnea irregular costuma pedir lente de contato especial para enxergar bem. A rígida é a primeira tentativa na maioria das pessoas; híbrida, escleral e gelatinosa especial entram quando ela não serve. A lente melhora a visão, mas não freia a doença, e exige higiene e retornos.
Neste artigo
Resposta rápida: No ceratocone, a lente rígida gás-permeável costuma ser a primeira tentativa quando os óculos deixam de corrigir bem. A híbrida, a escleral e a gelatinosa especial entram conforme o formato da córnea e a tolerância de cada pessoa.[1] Num estudo com 157 olhos, a visão corrigida passou, em média, de cerca de 20/63 com óculos para perto de 20/25 com lente escleral.[2] A lente melhora a visão, mas não impede o ceratocone de avançar; quem busca frear a doença é o crosslinking.
Lentes de contato para ceratocone: rígidas, híbridas e esclerais
Vídeo curto sobre as lentes para ceratocone. Mostra por que os óculos deixam de bastar quando a córnea fica irregular, como a lente rígida, a híbrida e a escleral se apoiam no olho e por que a escolha depende da córnea de cada pessoa. A lente melhora a visão e o acompanhamento da córnea continua.
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Quem tem ceratocone enxerga com óculos?
Enxerga, principalmente no começo da doença. Enquanto o astigmatismo ainda é regular, os óculos costumam dar uma visão satisfatória.[1] Conforme o cone avança, a córnea fica irregular de um jeito que a lente dos óculos não consegue compensar: as letras ganham sombra, as luzes à noite fazem halos e a imagem pode duplicar mesmo com um olho fechado.
Num estudo com 157 olhos com ceratocone, a média da melhor visão com óculos era de cerca de 20/63 e chegava perto de 20/25 com lente escleral.[2] Por isso, a lente de contato é a principal forma de corrigir a visão no ceratocone; os óculos continuam úteis como reserva para os momentos sem lente.
Trocar o grau dos óculos várias vezes em pouco tempo não é normal. Na experiência da rede, achar que é só o grau subindo é um dos erros que mais atrasam o diagnóstico. Se isso acontece com você, peça um exame da córnea. O guia completo está em ceratocone: sintomas, diagnóstico e tratamento.
- 1Com óculos: média de cerca de 20/63.
- 2Com lente escleral: média de cerca de 20/25.
Qual a lente ideal para quem tem ceratocone?
A lente ideal é a que dá boa visão, fica centrada e pode ser usada com conforto e segurança no seu olho. Não há uma lente melhor para todos. Na maioria das pessoas, a primeira tentativa é a lente rígida gás-permeável, que tem o maior índice de sucesso óptico entre as opções; quando ela incomoda ou não para no lugar, entram a híbrida, o piggyback, a gelatinosa especial ou a escleral.[1]
O formato do cone influencia a escolha: num estudo com 102 olhos adaptados com lente híbrida, o abandono foi maior nos cones caídos e mais periféricos do que nos centrais.[4] A topografia de córnea mostra esse formato antes da adaptação e orienta a escolha da primeira lente de prova.
Quais são os tipos de lente para ceratocone?
Os tipos usados no ceratocone são a gelatinosa especial, a rígida gás-permeável, a híbrida, a escleral e a combinação de duas lentes, chamada piggyback.[1] A tabela resume as diferenças. Os óculos entram como comparação.
| Tipo | Onde se apoia | Visão | Conforto | Indicação mais comum | Cuidados | Preço do par |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Óculos | Fora do olho | Boa no início; piora com a córnea irregular | Alto | Ceratocone inicial; reserva para quando a lente não pode ser usada | Atualizar o grau quando o médico indicar | Depende das lentes escolhidas na ótica |
| Gelatinosa especial (tórica ou própria para ceratocone) | Sobre a córnea, acompanhando a forma dela | Boa em cone leve; menor nos mais avançados | Alto | Ceratocone leve; quem não tolera a rígida | Limpeza e troca conforme o tipo | Sob consulta |
| Rígida gás-permeável | Sobre a córnea (8 a 10 mm de diâmetro) | Em geral a melhor nitidez entre as lentes que tocam a córnea | Exige um período de adaptação | Primeira tentativa na maioria dos casos | Limpeza diária e estojo limpo | R$ 1.980 à vista ou R$ 2.200 no cartão |
| Híbrida | Centro rígido sobre a córnea, borda macia | Próxima à da rígida quando a adaptação dá certo | Variável: 37,8% abandonaram em 6 meses num estudo | Quem não tolera a rígida, sobretudo com cone central | Manuseio cuidadoso; troca conforme o fabricante | Sob consulta |
| Escleral | Na parte branca do olho, sem tocar a córnea, com uma camada de soro por baixo | Boa mesmo em cone avançado | Em geral bom; colocar e tirar exige treino | Ceratocone moderado e avançado; quando as outras lentes falham | Encher com soro estéril a cada colocação; higiene rigorosa | R$ 5.015 à vista ou R$ 5.900 no cartão |
| Piggyback | Gelatinosa sobre a córnea e rígida por cima | A da lente rígida | Maior que o da rígida sozinha | Desconforto, instabilidade ou feridas na córnea com a rígida | Duas lentes para limpar e trocar | Sob consulta |
Fontes da tabela: revisão de Şengör e Aydın Kurna;[1] abandono da híbrida;[4] visão com escleral.[2] Os valores são da rede; as cinco opções de lente da tabela são adaptadas na rede.
- 1Lente macia, que acompanha a forma da córnea (traço dourado tracejado).
- 2Lente pequena e firme, apoiada na própria córnea (traço dourado contínuo).
- 3Lágrima preenchendo o espaço entre a lente e a córnea irregular.
- 4Centro rígido, sobre o cone.
- 5Borda macia, apoiada na periferia da córnea.
- 6Apoio na parte branca do olho (esclera), destacado em dourado.
- 7Reservatório de soro: a lente não toca a córnea.
Como funciona cada lente?
Gelatinosa tórica ou específica para ceratocone
A gelatinosa comum copia o formato da córnea, e por isso também copia a irregularidade. Ela funciona nas fases iniciais, quando o problema ainda é miopia e astigmatismo regular. Existem gelatinosas próprias para ceratocone, mais espessas no centro, feitas de material que deixa passar mais oxigênio; são uma alternativa para quem não tolera a rígida.[1] A rede adapta a gelatinosa especial, com valor sob consulta.
Rígida gás-permeável
É a lente mais usada no ceratocone. Tem de 8 a 10 mm de diâmetro e uma superfície firme e lisa. Entre ela e a córnea forma-se uma camada de lágrima que funciona como uma lente líquida e disfarça as irregularidades do cone.[1] O ponto fraco é o conforto: no início, a sensação de lente é maior que a de uma gelatinosa.
A lente rígida pode machucar a córnea quando o encaixe não está certo. Em cones centrais, o contato contínuo da lente com a ponta do cone pode causar erosões e cicatriz.[1] Por isso o médico procura um encaixe que distribua o peso da lente, e os retornos servem para conferir a córnea. Dor que não passa e olho vermelho não fazem parte da adaptação normal.
Híbrida
Tem o centro rígido e a borda macia, para juntar a nitidez da rígida com parte do conforto da gelatinosa. Num estudo belga com 102 olhos, a visão média subiu de 0,63 para 0,93 na escala decimal com a híbrida. Ao mesmo tempo, 37,8% dos olhos deixaram de usar a lente em até 6 meses, principalmente por desconforto e dificuldade de manuseio, e o abandono foi maior nos cones caídos e periféricos.[4] Na rede, a lente híbrida é adaptada nas 5 unidades, com valor sob consulta.
Escleral
É uma lente rígida grande, com 15 mm ou mais, que se apoia na parte branca do olho e passa por cima da córnea sem tocá-la. Antes de colocar, a pessoa enche a lente de soro, e esse reservatório de líquido neutraliza as irregularidades do cone.[1] Num serviço belga, 51 olhos com ceratocone grave, que de outro modo iriam para transplante, receberam a escleral; 40 continuavam usando a lente cerca de 30 meses depois.[5] Num centro universitário americano, com 2.806 olhos, quem usava escleral ou rígida passou menos por transplante do que quem não usava lente; o estudo é observacional e mostra associação, sem provar que a lente evita a cirurgia.[6]
A escleral também melhora a vida diária. Na França, o questionário de função visual subiu em média 19,5 pontos depois de 3 meses de uso.[7] Na Índia, em 28 olhos, a visão passou de cerca de 20/60 com óculos para perto de 20/20 com a lente.[8] Tudo sobre essa lente, inclusive quantas horas usar e os riscos, está no artigo lente escleral: o que é, para que serve e preço.
Piggyback
É o uso de duas lentes juntas: uma gelatinosa por baixo, que protege a córnea, e uma rígida por cima, que dá a nitidez. Serve para quem sente desconforto com a rígida, para quando ela não para centrada e para quem tem pequenas feridas na ponta do cone por causa dela.[1] A rede adapta o piggyback, com valor sob consulta.
Quando trocar a rígida pela escleral?
A rígida costuma ser tentada primeiro: é menor, mais barata e dá ótima nitidez em boa parte dos cones.[1] A escleral passa à frente quando a rígida incomoda, sai do lugar ou não corrige bem, o que é mais comum em cones muito curvos, como no ceratocone avançado.[1][5] Na rede, o par da rígida custa R$ 1.980 à vista e o da escleral, R$ 5.015 à vista (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação). A lente de prova ajuda a decidir na consulta, porque mostra como cada uma fica no seu olho. A comparação completa está no artigo sobre a lente escleral.
Onde fazer a adaptação de lente para ceratocone na rede?
A rede adapta lente rígida, híbrida e escleral nas 5 unidades: Tatuapé, Santana, Lapa, São Miguel Paulista e Guarulhos. Em geral quem adapta é a Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, médica oftalmologista, CRM-SP 148.173, RQE 59.216 (Oftalmologia), e outros médicos da rede também fazem a adaptação. Todas as unidades têm lentes de prova, e a adaptação dessas três lentes está incluída no valor da lente. A rede também adapta a gelatinosa especial e o piggyback, com valor sob consulta.
Em geral, a adaptação segue quatro passos:
- Exame da córnea, em geral a topografia, para ver o formato do cone. Na rede, o preparo é ficar 48 horas sem lente de contato de qualquer tipo, porque a lente deforma a córnea por algum tempo e falseia o mapa (o chamado corneal warpage). Para marcar, veja a página da topografia corneana.
- Prova da lente no consultório, com avaliação da posição, da visão e do conforto.
- Treino para colocar, tirar e limpar a lente.
- Retornos para ajustar o encaixe e o grau. Com a escleral, um levantamento internacional registrou em média 3,8 consultas por paciente e 2,4 lentes encomendadas por olho até a adaptação final.[9]
Quanto custa a lente para ceratocone?
Na rede, o par da lente rígida custa R$ 1.980 à vista ou R$ 2.200 no cartão, e o par da escleral custa R$ 5.015 à vista ou R$ 5.900 no cartão (particular, 2026, valor final confirmado na avaliação). A lente híbrida tem valor sob consulta. Nos três casos, a adaptação está incluída no valor da lente. A gelatinosa especial e o piggyback também têm valor sob consulta. Os preços dos tratamentos do ceratocone estão reunidos no Instituto do Ceratocone.
A lente de contato trata o ceratocone?
Não. A lente corrige a visão, mas não fortalece a córnea nem freia a doença. Num estudo com lente escleral, 14,6% dos olhos perderam parte da visão com a lente ao longo do acompanhamento, e todos por avanço do ceratocone.[2] O tratamento que busca frear a progressão é o crosslinking, indicado quando os exames mostram que o cone está avançando. O artigo ceratocone tem cura? explica o que cada tratamento faz.
Na rede, a tomografia de córnea (Pentacam) de controle costuma ser repetida a cada 4 meses, mesmo em quem já enxerga bem com lente. Ela é feita no MIRA Hospital Oftalmológico, hospital próprio da rede; entenda o exame no artigo sobre a tomografia de córnea.
Depois do crosslinking, a lente costuma precisar de ajuste. Num estudo com 18 olhos que já usavam escleral, 61% precisaram de nova adaptação ou de novo grau no ano seguinte ao procedimento, com a visão e o tempo de uso estáveis.[10] Na rede, em geral, a lente de correção pode voltar cerca de 15 dias depois do crosslinking ou do anel intracorneano (conhecido como anel de Ferrara); o médico confirma no retorno.
Lente para ceratocone tem risco de úlcera?
Tem, como qualquer lente de contato, e o risco é baixo quando o uso é correto. A úlcera de córnea é uma ceratite infecciosa. Num acompanhamento de 157 olhos com lente escleral por pelo menos um ano, houve 1 caso, ou 0,6%.[2] Num levantamento nacional na Austrália, a ceratite infecciosa atingiu 1,2 em cada 10 mil usuários de lente rígida de uso diurno por ano, e qualquer uso durante o sono aumentou o risco.[3]
Os fatores que mais pesam são os que você controla: dormir com a lente, não lavar e secar as mãos antes de mexer nela e cuidar mal do estojo.[11]
Quais cuidados a lente para ceratocone exige?
- Lave e seque bem as mãos antes de tocar na lente.[11]
- Use só as soluções indicadas na adaptação. Água de torneira, saliva e soro caseiro não servem para limpar, guardar nem encher a lente.
- Não durma com a lente, a menos que o médico tenha indicado esse uso.[3]
- Limpe o estojo e troque-o no prazo orientado.[11]
- Não coce os olhos. A fricção está ligada à piora do ceratocone; veja o artigo sobre coçar os olhos e alergia.
- Leve a lente, o estojo e as soluções aos retornos.
Quando procurar atendimento antes do retorno?
Procure atendimento no mesmo dia se tiver dor que não passa, olho muito vermelho, sensibilidade forte à luz, secreção, queda súbita da visão ou dificuldade para tirar a lente. Tire a lente, se conseguir, e leve-a com o estojo. Não use colírio anestésico nem antibiótico por conta própria e não insista em usar a lente para se acostumar.
Perguntas frequentes
Posso dormir com a lente para ceratocone?
Não durma com a lente, a menos que o médico tenha indicado esse uso.[3]
Quando posso voltar à lente depois do crosslinking?
Na rede, em geral, a lente de correção pode voltar cerca de 15 dias depois do crosslinking ou do anel intracorneano; o médico confirma no retorno.
Referências
- Şengör T, Aydın Kurna S. Update on Contact Lens Treatment of Keratoconus. Turk J Ophthalmol. 2020;50(4):234-244. DOI: 10.4274/tjo.galenos.2020.70481. PMID: 32854468.
- Fuller DG, Wang Y. Safety and Efficacy of Scleral Lenses for Keratoconus. Optom Vis Sci. 2020;97(9):741-748. DOI: 10.1097/OPX.0000000000001578. PMID: 32932400.
- Stapleton F, Keay L, Edwards K, Naduvilath T, Dart JK, Brian G, Holden BA. The incidence of contact lens-related microbial keratitis in Australia. Ophthalmology. 2008;115(10):1655-1662. DOI: 10.1016/j.ophtha.2008.04.002. PMID: 18538404.
- Kloeck D, Koppen C, Kreps EO. Clinical Outcome of Hybrid Contact Lenses in Keratoconus. Eye Contact Lens. 2021;47(5):283-287. DOI: 10.1097/ICL.0000000000000738. PMID: 33009254.
- Koppen C, Kreps EO, Anthonissen L, Van Hoey M, Dhubhghaill SN, Vermeulen L. Scleral Lenses Reduce the Need for Corneal Transplants in Severe Keratoconus. Am J Ophthalmol. 2018;185:43-47. DOI: 10.1016/j.ajo.2017.10.022. PMID: 29103959.
- Ling JJ, Mian SI, Stein JD, Rahman M, Poliskey J, Woodward MA. Impact of Scleral Contact Lens Use on the Rate of Corneal Transplantation for Keratoconus. Cornea. 2021;40(1):39-42. DOI: 10.1097/ICO.0000000000002388. PMID: 32452985.
- Baudin F, Chemaly A, Arnould L, Barrénéchea E, Lestable L, Bron AM, Creuzot-Garcher C. Quality-of-Life Improvement After Scleral Lens Fitting in Patients With Keratoconus. Eye Contact Lens. 2021;47(9):520-525. DOI: 10.1097/ICL.0000000000000821. PMID: 34261868.
- Hadimani SR, Kaur H, Shinde AJ, Chottopadhyay T. Quality of life and vision assessment with scleral lenses in keratoconus. Saudi J Ophthalmol. 2024;38(2):173-178. DOI: 10.4103/sjopt.sjopt_157_23. PMID: 38988786.
- Schornack MM, Fogt J, Nau A, Nau CB, Harthan JS, Cao D, Shorter E. Scleral lens prescription and management practices: Emerging consensus. Cont Lens Anterior Eye. 2023;46(1):101501. DOI: 10.1016/j.clae.2021.101501. PMID: 34456112.
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Revisão médica: Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, médica oftalmologista, CRM-SP 148.173, RQE 59.216 (Oftalmologia). Revisado em AAAA-MM-DD. Conteúdo educativo; não substitui a consulta, o exame dos olhos e a orientação individual do seu médico.
Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.