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Retina

Syfovre (Pegcetacoplan): O Novo Tratamento para a Atrofia Geográfica na DMRI Seca

Publicado em 19 de julho de 2026 Atualizado em 19 de julho de 2026 12 min de leitura Dr. Fernando Macei Drudi
Imagem de capa do artigo Syfovre (Pegcetacoplan): O Novo Tratamento para a Atrofia Geográfica na DMRI Seca, conteúdo da categoria Retina.
Dr. Fernando Macei Drudi
Autor Médico
Dr. Fernando Macei Drudi
CRM-SP 139.300

Resumo em linguagem simples

O Syfovre (pegcetacoplan) é o primeiro tratamento aprovado para a atrofia geográfica, a forma mais avançada da DMRI seca. Conheça os resultados dos estudos OAKS e DERBY, o que diz a revisão Cochrane e a situação no Brasil.

CID-10: H35 — Outros transtornos da retina Ver todos os artigos de Retina

Introdução

A Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) é uma das principais causas de perda visual em pessoas com mais de 60 anos em todo o mundo. Até recentemente, pacientes diagnosticados com a forma seca avançada da doença, conhecida como atrofia geográfica (AG), enfrentavam um cenário desolador: a ausência de qualquer tratamento capaz de retardar a progressão da perda de visão.

No entanto, a aprovação do Syfovre (pegcetacoplan) pelo FDA (Food and Drug Administration) em 2023 inaugurou uma nova era na oftalmologia. Como o primeiro inibidor do sistema complemento aprovado para atrofia geográfica, o Syfovre atua diretamente na via inflamatória que causa a destruição das células da retina.

Neste artigo, o Instituto Drudi e Almeida detalha o mecanismo de ação do Syfovre, analisa os resultados dos principais estudos clínicos (OAKS e DERBY), revisa a literatura científica recente da Cochrane e discute o panorama atual de aprovação e custos no Brasil.

O que é a Atrofia Geográfica na DMRI Seca?

A DMRI divide-se em duas formas principais: a exsudativa (úmida) e a não exsudativa (seca). A forma seca é responsável por cerca de 85% a 90% de todos os casos de DMRI. A atrofia geográfica representa o estágio final e mais severo da DMRI seca.

Nesta fase, ocorre a morte progressiva e irreversível de células essenciais para a visão: os fotorreceptores (células que captam a luz), o epitélio pigmentar da retina (EPR) e a coriocapilar (rede de vasos sanguíneos que nutre a retina). O resultado clínico é o desenvolvimento de áreas de atrofia na mácula — a região central da retina — que se expandem lentamente ao longo do tempo.

Os pacientes com atrofia geográfica experimentam uma perda gradual da visão central, o que compromete severamente a capacidade de ler, reconhecer rostos, dirigir e realizar atividades diárias que exigem foco visual detalhado.

Como Funciona o Syfovre (Pegcetacoplan)?

A patogênese da atrofia geográfica está fortemente associada à hiperativação crônica do sistema complemento, uma parte essencial do sistema imunológico humano. O sistema complemento é composto por uma cascata de proteínas que, quando ativadas desproporcionalmente, podem atacar e destruir tecidos saudáveis do próprio corpo, incluindo as células da retina.

O pegcetacoplan (comercializado sob o nome Syfovre pela Apellis Pharmaceuticals) é um inibidor direcionado da proteína C3, uma molécula central na cascata do complemento. Ao se ligar à proteína C3 e inibir a sua clivagem, o medicamento bloqueia a ativação excessiva do sistema imunológico local, reduzindo a inflamação e a destruição das células retinianas.

A administração do Syfovre é realizada por meio de injeções intravítreas (diretamente no interior do olho), em intervalos que podem variar de mensais a bimestrais (a cada dois meses), dependendo da avaliação e do protocolo estabelecido pelo oftalmologista especialista em retina.

Evidências Científicas: Os Estudos OAKS e DERBY

A eficácia e a segurança do Syfovre foram rigorosamente avaliadas em dois grandes ensaios clínicos de fase 3, multicêntricos, randomizados e controlados por simulação (sham): os estudos OAKS e DERBY.

Juntos, esses estudos envolveram mais de 1.200 pacientes com atrofia geográfica secundária à DMRI e avaliaram o impacto das injeções de pegcetacoplan (mensais e a cada dois meses) no crescimento das lesões atróficas ao longo de 24 meses.

Redução do Crescimento da Lesão

Os resultados de 24 meses, publicados na prestigiada revista científica The Lancet, demonstraram que o Syfovre reduziu significativamente a taxa de crescimento das lesões de atrofia geográfica em comparação com o grupo controle:

Frequência de TratamentoEstudo OAKSEstudo DERBY
Mensal22% de redução19% de redução
Bimestral (a cada 2 meses)18% de redução16% de redução

Um aspecto notável observado em ambos os estudos foi o aumento da eficácia do tratamento ao longo do tempo. A redução no crescimento da lesão foi mais pronunciada no segundo ano de tratamento (meses 12 a 24) do que no primeiro ano, sugerindo um benefício cumulativo da inibição contínua do complemento. Dados da extensão de longo prazo (estudo GALE, publicado no American Journal of Ophthalmology em 2025) apontam para uma redução ainda maior após 36 meses de tratamento contínuo.

Impacto na Visão e Qualidade de Vida

Embora os resultados anatômicos (redução da área de atrofia) sejam indiscutivelmente positivos, o impacto funcional imediato tem sido objeto de intenso debate científico.

Uma análise post-hoc recente dos estudos OAKS e DERBY avaliou a acuidade visual e a qualidade de vida dos pacientes com base na localização da atrofia em relação à fóvea (o centro exato da mácula). O estudo revelou que pacientes com lesões localizadas a 250 micrômetros ou mais do centro foveal (lesões extrafoveais) demonstraram um declínio mais lento na acuidade visual e melhor manutenção da qualidade de vida com o uso do pegcetacoplan. Para pacientes com atrofia já atingindo o centro da fóvea, a mudança na visão foi comparável ao grupo controle — reforçando a importância do diagnóstico e início do tratamento precoces.

O Que Diz a Revisão Cochrane?

A Cochrane Database of Systematic Reviews é considerada o padrão-ouro em medicina baseada em evidências. Em uma revisão sistemática abrangente sobre inibidores do complemento para a DMRI, os pesquisadores analisaram dados de 10 ensaios clínicos envolvendo mais de 4.000 participantes.

A conclusão da Cochrane corrobora os achados dos ensaios clínicos: o pegcetacoplan (administrado mensalmente ou bimestralmente) reduz de forma clinicamente significativa o crescimento das áreas de retina doente (atrofia geográfica) após um ano de tratamento, com alta certeza de evidência.

Contudo, a revisão também destaca um ponto crucial para o alinhamento de expectativas: no curto prazo (12 a 24 meses), a terapia não demonstrou reverter a perda de visão já estabelecida ou melhorar a acuidade visual de forma aguda. O objetivo principal do tratamento é retardar a progressão da doença e preservar o tecido retiniano viável por mais tempo — o que, em uma doença progressiva e irreversível como a atrofia geográfica, representa um avanço clínico significativo.

Efeitos Adversos e Segurança

Como qualquer procedimento médico, as injeções intravítreas de Syfovre apresentam riscos que devem ser cuidadosamente avaliados. O perfil de segurança demonstrado nos estudos indica que a medicação é geralmente bem tolerada, mas requer monitoramento oftalmológico rigoroso.

Os efeitos adversos mais comuns (ocorrendo em mais de 5% dos pacientes) incluem desconforto ocular temporário após a injeção, moscas volantes e hemorragia conjuntival (pequeno sangramento na superfície do olho).

A literatura científica, incluindo a revisão Cochrane e os dados da FDA, aponta para riscos mais sérios, embora menos frequentes:

Conversão para DMRI Úmida (Exsudativa): O uso de inibidores do complemento está associado a um risco aumentado de desenvolvimento de neovascularização macular (formação de vasos sanguíneos anormais), convertendo a DMRI seca em úmida. Nos estudos clínicos, a incidência de DMRI úmida em 24 meses foi de 12% no grupo de injeção mensal, 7% no grupo bimestral e 3% no grupo controle. Caso isso ocorra, o paciente precisará de tratamento adicional com injeções de anti-VEGF.

Inflamação Intraocular e Endoftalmite: Episódios de inflamação intraocular e, mais raramente, endoftalmite (infecção grave no interior do olho) foram relatados. A taxa de endoftalmite foi estimada em cerca de 0,06% a 0,08% por injeção — comparável a outros procedimentos de injeção intravítrea.

Situação no Brasil: Aprovação e Custos

No cenário brasileiro, o Syfovre (pegcetacoplan) foi submetido à avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Em meados de 2025, a agência analisou a documentação para a indicação do medicamento no tratamento da DMRI seca e atrofia geográfica. No entanto, até o momento da redação deste artigo, a comercialização rotineira em farmácias ou a inclusão no rol da ANS e do SUS ainda não é uma realidade ampla.

Para pacientes que necessitam do tratamento imediatamente e possuem indicação médica rigorosa, a via de acesso mais comum tem sido a importação direta do medicamento.

O custo do tratamento é um fator limitante significativo. Nos Estados Unidos, o preço de lista do Syfovre gira em torno de US$ 2.200 por frasco. No Brasil, estimativas de importadores especializados apontam que o custo de importação de um único frasco (15 mg / 0,1 mL) pode ultrapassar os R$ 30.000,00, sem contabilizar os honorários médicos para a aplicação da injeção intravítrea. Considerando que o tratamento exige injeções mensais ou bimestrais contínuas, o investimento anual é substancial, tornando essencial uma discussão aprofundada entre o paciente, a família e o oftalmologista especialista em retina.

Conclusão

A chegada do Syfovre (pegcetacoplan) representa um marco histórico e um divisor de águas na oftalmologia. Pela primeira vez, os médicos possuem uma ferramenta terapêutica capaz de intervir diretamente na biologia da atrofia geográfica, retardando a destruição da retina.

Embora o tratamento não restaure a visão já perdida e exija um comprometimento financeiro e clínico considerável, a possibilidade de preservar a independência visual por mais anos é um avanço inestimável para pacientes com DMRI seca avançada.

Se você ou um familiar foi diagnosticado com degeneração macular relacionada à idade, o Instituto Drudi e Almeida conta com especialistas em retina preparados para avaliar o seu caso, discutir as opções terapêuticas mais modernas e indicar o tratamento mais adequado para preservar a sua visão.

Referências

  1. Heier JS, et al. Pegcetacoplan for the treatment of geographic atrophy secondary to age-related macular degeneration (OAKS and DERBY): two multicentre, randomised, double-masked, sham-controlled, phase 3 trials. The Lancet. Outubro de 2023. doi:10.1016/S0140-6736(23)01520-9
  2. Wykoff CC, et al. Pegcetacoplan Treatment for Geographic Atrophy in Age-Related Macular Degeneration Over 36 Months: Data From OAKS, DERBY, and GALE. American Journal of Ophthalmology. Agosto de 2025. doi:10.1016/j.ajo.2025.04.016
  3. Chiang A, et al. Visual Acuity and Quality of Life Outcomes With Pegcetacoplan Treatment: A Post Hoc Analysis From the OAKS and DERBY Trials. American Journal of Ophthalmology. Setembro de 2025. doi:10.1016/j.ajo.2025.05.023
  4. Cochrane Database of Systematic Reviews. Complement inhibitors for age-related macular degeneration. Junho de 2023. CD009300.
  5. Liao DS, et al. Complement C3 Inhibitor Pegcetacoplan for Geographic Atrophy Secondary to Age-Related Macular Degeneration: A Randomized Phase 2 Trial. Ophthalmology. 2020.
  6. Wang H, et al. Efficacy and safety of complement inhibitors in patients with geographic atrophy associated with age-related macular degeneration: a network meta-analysis of randomized controlled trials. Frontiers in Pharmacology. Novembro de 2024. doi:10.3389/fphar.2024.1410172
  7. ANVISA. VOTO Nº 142/2025/SEI/DIRE4/ANVISA. Junho de 2025.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.

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