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Retinopatia da Prematuridade: Triagem, Graus e Tratamento

Publicado em 05 de agosto de 2026 Atualizado em 21 de agosto de 2026 Revisão médica: 07 de agosto de 2026 22 min de leitura Dr. Fernando Macei Drudi
Retinopatia da Prematuridade (ROP): Triagem e Tratamento — ilustração médica sobre saúde ocular neonatal — Instituto Drudi e Almeida Oftalmologia
Dr. Fernando Macei Drudi
Autor Médico
Dr. Fernando Macei Drudi
CRM-SP 139.300 | RQE 50.645

Resumo em linguagem simples

Este artigo explica de forma acessível o que é retinopatia da prematuridade: triagem, graus e tratamento, incluindo causas, sintomas, diagnóstico e opções de tratamento disponíveis no Instituto Dru...

CID-10: H35.1 — Retinopatia da prematuridade

Resposta rápida. Todo bebê nascido com 1.500 g ou menos e/ou com 32 semanas ou menos de gestação precisa de um exame de fundo de olho entre a 4ª e a 6ª semana de vida, ainda na UTI neonatal. A retinopatia da prematuridade não dá nenhum sinal visível — o olho parece normal por fora. Quando detectada a tempo, é tratável na grande maioria dos casos. Quando não é, é uma das principais causas de cegueira infantil evitável.


Seu bebê precisa deste exame?

Antes de qualquer explicação, a pergunta prática.

Precisa de triagem para ROP todo recém-nascido que se enquadre em pelo menos um destes critérios:

  • Peso ao nascer igual ou menor que 1.500 g
  • Idade gestacional igual ou menor que 32 semanas

Repare no "igual ou menor". Um bebê de exatamente 1.500 g ou de exatamente 32 semanas está dentro do critério. Esse detalhe existe porque a fronteira é arbitrária e a doença não respeita arredondamentos.

Esses são os critérios das Diretrizes Brasileiras de Triagem e Detecção da ROP, elaboradas em conjunto pela Sociedade Brasileira de Pediatria, pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia e pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica [2].

Também devem ser examinados, mesmo acima desses limites, bebês com curso clínico instável — os que precisaram de suporte cardiorrespiratório prolongado, tiveram sepse, receberam transfusões ou ganharam pouco peso nas primeiras semanas. Essa decisão é do neonatologista em conjunto com o oftalmologista.

Quando: o primeiro exame deve acontecer entre a 4ª e a 6ª semana de vida, ainda durante a internação. Não é um exame para fazer "depois da alta".


O teste do olhinho não detecta retinopatia da prematuridade

Esta é a confusão mais custosa desta doença, e vale um bloco inteiro.

O teste do olhinho (teste do reflexo vermelho) é feito na maternidade, dura segundos e é obrigatório em boa parte do país. Muitos pais saem de lá com a impressão tranquilizadora de que "o olho do bebê já foi examinado".

Ele não examina o que a ROP acomete.

O teste do olhinho procura obstáculos na passagem da luz: catarata congênita, retinoblastoma, opacidades da córnea e do vítreo. É um exame de triagem excelente para isso.

A retinopatia da prematuridade começa na periferia da retina — a região mais distante do centro. Nessa localização, ela não altera o reflexo vermelho. Um bebê pode ter ROP grave e teste do olhinho perfeitamente normal.

Teste do olhinho Exame de triagem da ROP
Onde é feito Berçário, à beira do leito UTI neonatal ou consultório
Pupila dilatada Não Sim, obrigatoriamente
Equipamento Oftalmoscópio simples Oftalmoscópio binocular indireto
Quem faz Pediatra ou neonatologista Oftalmologista
Duração Segundos Alguns minutos
Detecta ROP? Não Sim

Os dois exames são necessários e não se substituem. Se o seu bebê é prematuro dentro dos critérios acima e fez apenas o teste do olhinho, a triagem de ROP ainda não foi feita.


O que é a retinopatia da prematuridade

Os vasos sanguíneos da retina começam a se formar por volta da 16ª semana de gestação e só terminam perto do parto a termo, em torno da 40ª semana. É um trabalho lento, que acontece de dentro para fora: do nervo óptico em direção à periferia.

Quando o bebê nasce prematuro, esse processo é interrompido no meio.

A primeira fase é de parada. Fora do útero, o ambiente é muito mais rico em oxigênio do que a retina esperava. Com oxigênio sobrando, o estímulo para crescer vasos desaparece — e a vascularização simplesmente para. Parte da retina fica permanentemente sem vasos.

A segunda fase é de excesso. Semanas depois, o bebê cresce e a retina passa a exigir mais oxigênio do que aquela vascularização incompleta consegue entregar. A área sem vasos entra em sofrimento e responde produzindo VEGF em grande quantidade.

Aí está o problema: esse VEGF não faz vasos normais. Faz vasos frágeis, desorganizados, que crescem na direção errada — para dentro do gel vítreo, em vez de acompanharem a retina. Junto com eles vem tecido fibroso. Quando esse tecido se contrai, ele puxa a retina e pode descolá-la.

Duas consequências desse mecanismo merecem atenção:

O oxigênio não é vilão nem herói. Ele é necessário para manter o bebê vivo. O que se busca hoje é evitar oscilações e manter alvos controlados — não cortar oxigênio, o que seria muito pior. Nenhum pai deve sair achando que a UTI causou a doença do filho.

A doença tem um relógio próprio. Ela não aparece no nascimento e não aparece depois da alta. Ela tem uma janela, que é justamente a das semanas de triagem.


Quem tem mais risco

Fator Por quê
Menor peso ao nascer Quanto menor, mais incompleta a vascularização
Menor idade gestacional O fator mais forte, junto com o peso
Oxigenoterapia prolongada e oscilante Interfere no estímulo de crescimento vascular
Ganho de peso lento nas primeiras semanas Marcador indireto de IGF-1 baixo
Sepse Inflamação sistêmica agrava a lesão vascular
Transfusões sanguíneas Associadas a maior risco
Displasia broncopulmonar Reflete gravidade respiratória
Persistência do canal arterial Associada a maior necessidade de tratamento

Existe um escore de risco desenvolvido e validado no Brasil, o ROPScore, que combina peso, idade gestacional, uso de ventilação com oxigênio, transfusões e ganho de peso na sexta semana. Em uma validação com 322 prematuros de muito baixo peso no sul do país, o ponto de corte de 14,5 identificou todos os bebês que desenvolveram ROP grave, com sensibilidade de 100% e valor preditivo negativo de 100% [10].

Nesse mesmo estudo, a incidência de ROP em qualquer estágio foi de 68,3% e de ROP grave, 17% — números que dão a dimensão real do problema em prematuros de muito baixo peso no Brasil.


Onde a doença está: as zonas

Figura 1 — Fundo de olho esquemático mostrando as zonas I, II posterior, II e III concêntricas ao nervo óptico, com as horas de relógio usadas para descrever a extensão da doença.

Figura 1. A zona é medida a partir do nervo óptico. Quanto mais posterior, mais grave.

Este é o conceito que costuma faltar nas explicações — e sem ele nada do resto faz sentido.

Como os vasos crescem do nervo óptico para fora, a doença aparece exatamente onde o crescimento parou. Se parou cedo, parou perto do centro. E o centro é onde está a visão.

A retina é dividida em três zonas concêntricas ao nervo óptico:

Zona I — um círculo ao redor do nervo óptico, com raio igual a duas vezes a distância entre o nervo e a mácula. É a zona mais posterior e a mais grave. Doença aqui significa que a vascularização parou muito cedo.

Zona II posterior — uma faixa de dois diâmetros de disco além da zona I. Foi criada pela classificação internacional de 2021 justamente porque doenças logo na borda da zona I se comportam de forma mais agressiva do que o resto da zona II [1].

Zona II — o anel que vai da zona I até a borda nasal da retina.

Zona III — o crescente temporal restante. Prognóstico consideravelmente melhor.

A extensão é descrita em horas de relógio, de 1 a 12, indicando quanto da circunferência está acometida.

Por que isso importa tanto: uma doença de grau 3 na zona I é emergência. O mesmo grau 3 na zona III costuma apenas ser observado. Descrever o grau sem a zona deixa o diagnóstico pela metade.


Quanto avançou: os graus (estágios)

Figura 2 — Cinco cortes esquemáticos da junção entre retina vascularizada e retina avascular, mostrando linha de demarcação, crista, proliferação para o vítreo, descolamento parcial e descolamento total.

Figura 2. O estágio descreve o que acontece na fronteira entre a retina que já tem vasos e a que ainda não tem.

Muitos pais recebem a informação como "grau 1", "grau 2". Na literatura médica o termo é estágio, mas significa a mesma coisa.

Grau 1 (estágio 1) — linha de demarcação

Uma linha fina e plana separa a retina vascularizada da avascular. A maioria regride sozinha, sem qualquer tratamento.

Grau 2 (estágio 2) — crista

A linha ganha volume e vira uma crista elevada. Muitos casos ainda regridem espontaneamente.

Grau 3 (estágio 3) — proliferação para o vítreo

Vasos novos e frágeis crescem a partir da crista em direção ao gel do olho. É a partir daqui que o tratamento entra em discussão — mas, como você vai ver na próxima seção, nem todo grau 3 é tratado e nem todo tratamento espera pelo grau 3.

Grau 4 (estágio 4) — descolamento parcial

O tecido fibroso se contrai e puxa a retina. Divide-se em 4A (mácula ainda colada) e 4B (mácula descolada) — distinção que muda muito o prognóstico visual.

Grau 5 (estágio 5) — descolamento total

A retina se descola por completo. Mesmo com cirurgia, a recuperação visual é limitada.

A exceção perigosa: ROP agressiva

Existe uma forma que não segue essa sequência. A ROP agressiva (chamada A-ROP na classificação de 2021) pode ir direto ao descolamento sem passar pelos graus 1, 2 e 3. Ela se caracteriza por vasos muito dilatados e tortuosos no polo posterior, com pouca proliferação visível.

A classificação de 2021 mudou o nome de "ROP agressiva posterior" para apenas "ROP agressiva", ao reconhecer que ela também ocorre em prematuros maiores e fora da região posterior, especialmente em locais com menos recursos de monitorização de oxigênio [1].

É por causa dela que a triagem não pode ser espaçada só porque "estava tudo bem no exame anterior".


Doença plus: o sinal de que está ativa

Figura 3 — Três polos posteriores comparando vasos normais, pré-plus com dilatação e tortuosidade intermediárias, e doença plus com dilatação e tortuosidade marcadas.

Figura 3. Não é sim ou não — é um espectro contínuo.

Doença plus é a dilatação e a tortuosidade dos vasos do polo posterior — a região central, ao redor do nervo óptico. Ela indica que há muito VEGF circulando e que a doença está em atividade.

Não é um achado periférico: é o próprio centro do olho avisando que o processo está acelerado.

A classificação de 2021 reconheceu formalmente que existe um espectro contínuo entre o vaso normal e a doença plus, e não uma fronteira exata [1]. O estágio intermediário é chamado de pré-plus.

A presença de doença plus transforma quadros que seriam observados em quadros que precisam ser tratados. É o fiel da balança.


Quando se trata: ROP Tipo 1

Figura 4 — Duas matrizes cruzando zona e estágio, uma para olhos com doença plus e outra sem, indicando quais combinações configuram ROP Tipo 1 e exigem tratamento.

Figura 4. A decisão cruza três informações: zona, grau e doença plus. Nenhuma delas decide sozinha.

Durante décadas o critério foi tratar apenas na chamada doença limiar. O ensaio ETROP, publicado em 2004, mudou isso.

O estudo randomizou 317 lactentes com doença pré-limiar de alto risco, tratando um olho precocemente e acompanhando o outro pelo critério antigo. O resultado: o desfecho visual desfavorável caiu de 19,8% para 14,3%, e o desfecho estrutural desfavorável de 15,6% para 9,0% [3].

A partir daí, o padrão mundial passou a ser tratar a ROP Tipo 1:

  • Zona I, qualquer grau, com doença plus
  • Zona I, grau 3, sem doença plus
  • Zona II, grau 2 ou 3, com doença plus

Repare na primeira linha. Zona I com doença plus se trata mesmo nos graus 1 e 2. Esperar o grau 3 nesses olhos é perder a janela — e era exatamente o que o critério antigo mandava fazer.

A ROP Tipo 2 (zona I graus 1 ou 2 sem plus; zona II grau 3 sem plus) é observada de perto e tratada apenas se progredir para Tipo 1.

Prazo: confirmada a indicação, o tratamento deve acontecer em 48 a 72 horas. Não é uma cirurgia que se agenda para o mês seguinte.


Como é o exame

O exame de triagem é o mapeamento de retina feito com oftalmoscopia binocular indireta, sob dilatação pupilar.

Como funciona, na prática:

  1. Colírio para dilatar a pupila, aplicado cerca de uma hora antes, em doses adequadas ao peso do bebê
  2. Colírio anestésico na superfície do olho
  3. Um blefarostato pediátrico mantém as pálpebras abertas
  4. O oftalmologista examina com uma lente e uma luz montada na cabeça, frequentemente usando um indentador para visualizar a periferia extrema
  5. O exame dura poucos minutos por olho

Sobre o desconforto — e é honesto falar disso: o exame incomoda. O bebê chora. Existem medidas que reduzem o estresse e que devem fazer parte da rotina: solução de sacarose oral, contenção facilitada, sucção não nutritiva, e a presença dos pais quando possível. Peça por elas.

Sobre a documentação fotográfica: câmeras de campo amplo (RetCam e similares) permitem registrar o fundo de olho em imagens. Isso tem três vantagens: cria um registro objetivo para comparar exames, permite que os pais vejam o que o médico viu, e viabiliza segunda opinião a distância. Onde não há retinólogo disponível, esse recurso é a base dos programas de telemedicina em ROP.


O calendário dos exames

Figura 5 — Linha do tempo mostrando o primeiro exame entre a quarta e a sexta semana de vida, os intervalos de reavaliação conforme o achado e os critérios para encerrar a triagem.

Figura 5. O intervalo entre um exame e o seguinte depende do que foi encontrado.

Não existe agenda fixa. A frequência é definida pelo achado do exame anterior:

Achado Intervalo
Zona I, qualquer grau · zona II com grau 3 · doença plus ou pré-plus Semanal ou mais frequente
Zona II com grau 1 ou 2 · regressão em curso A cada 2 semanas
Zona III sem doença · vascularização avançando A cada 2 a 3 semanas

Quando a triagem pode ser encerrada

A alta da triagem não é por idade, é por critério anatômico. Ela acontece quando:

  • A vascularização se completou até a periferia, ou
  • Os vasos alcançaram a zona III sem que tenha havido ROP prévia em zona I ou II, ou
  • A doença regrediu completamente, sem sinais de atividade

Quem define isso é o oftalmologista, no exame. E há uma exceção importante: bebês tratados com anti-VEGF precisam de acompanhamento bem mais longo, pelo motivo explicado adiante.


Tratamento: injeção de anti-VEGF

A injeção intravítrea de um medicamento anti-VEGF bloqueia o sinal químico que faz os vasos anormais crescerem, permitindo que a vascularização normal retome seu curso.

O ensaio RAINBOW, publicado no Lancet, comparou ranibizumabe com laser em 225 prematuros de muito baixo peso, em 87 centros de 26 países. Aos seis meses, o sucesso do tratamento foi de 80% com ranibizumabe 0,2 mg contra 66% com laser [4].

O seguimento de dois anos trouxe o dado que mais interessa a longo prazo: miopia alta em 5% dos olhos tratados com ranibizumabe contra 20% dos tratados com laser (razão de chances 0,19). Não houve diferença nos desfechos de desenvolvimento neurológico entre os grupos [5].

Vantagens: procedimento rápido, preserva a retina periférica, permite que a vascularização continue, menos miopia no futuro.

A desvantagem que exige atenção: a doença pode reativar depois. Uma revisão sistemática de 15 estudos com 1.784 olhos encontrou reativação entre 7 e mais de 50 semanas após o tratamento [8]. Isso significa que dar alta precoce a um bebê tratado com anti-VEGF é o principal risco dessa modalidade.

Um achado que refina a escolha: nessa mesma revisão, a recorrência após anti-VEGF foi menor na zona I (RR 0,52) e maior na zona II (RR 3,42) em comparação ao laser. Ou seja, anti-VEGF é particularmente bom na doença posterior, e exige vigilância redobrada na zona II.


Tratamento: fotocoagulação a laser

O laser é aplicado sobre a retina periférica avascular, destruindo o tecido que está produzindo VEGF. Sem a fonte do estímulo, os vasos anormais regridem.

Vantagens: efeito definitivo na área tratada, sem exposição sistêmica a medicamento, sem o risco de reativação tardia.

Desvantagens: sacrifica permanentemente parte da retina periférica, associa-se a mais miopia, exige sedação ou anestesia e leva mais tempo.

Continua sendo uma escolha adequada em muitas situações — especialmente quando o acompanhamento prolongado não pode ser garantido.


Anti-VEGF ou laser: o que muda

Figura 6 — Comparação de desfechos entre injeção de anti-VEGF e fotocoagulação a laser: miopia alta, sucesso do tratamento, descolamento e cirurgia.

Figura 6. Os dois funcionam. A escolha depende da zona, da estrutura disponível e da possibilidade de acompanhar por muitos meses.

Uma metanálise com 12 ensaios randomizados e 58 estudos observacionais, somando 10.516 lactentes, comparou as duas estratégias [6]:

  • Descolamento de retina: risco relativo 0,36 a favor do anti-VEGF
  • Necessidade de cirurgia: RR 0,38 a favor do anti-VEGF
  • Miopia: RR 0,67 a favor do anti-VEGF
  • Desenvolvimento neurológico: sem diferença (RR 1,05)

Sobre miopia, uma revisão com 86 estudos e 10.269 olhos quantificou melhor: miopia alta em 21,3% após anti-VEGF contra 42,6% após laser [7].

Sobre mortalidade: o que a evidência realmente diz

Este ponto merece honestidade, porque circula de forma distorcida.

Na metanálise citada acima, os estudos observacionais mostraram maior mortalidade associada ao anti-VEGF (RR 1,68). Mas os ensaios randomizados — que são o desenho capaz de controlar confundimento — não confirmaram esse achado (RR 1,02) [6].

A leitura mais provável é que, na vida real, bebês mais graves recebem anti-VEGF com mais frequência, e são esses bebês que morrem mais — por serem mais graves, não pelo tratamento. Ainda assim, é uma questão em aberto que justifica novos estudos.


Cirurgia: graus 4 e 5

Quando a retina já está descolada, o tratamento é cirúrgico: vitrectomia ou introflexão escleral, conforme o caso. O objetivo é liberar a tração do tecido fibroso e reaplicar a retina.

É preciso ser realista: nesses estágios, a recuperação visual é limitada. O sucesso anatômico — recolar a retina — nem sempre se traduz em visão útil, porque a retina já sofreu dano. A cirurgia é feita para preservar o que for possível, não para restaurar o que foi perdido.

Isso reforça o ponto central deste artigo: o valor está na triagem, não no resgate.


Depois da alta: o olho do ex-prematuro

Mesmo os bebês que tiveram ROP leve e regrediram sozinhos, e mesmo os que nunca tiveram ROP, mantêm risco aumentado de problemas oculares ao longo da infância:

  • Miopia, frequentemente de aparecimento precoce e progressiva
  • Estrabismo
  • Ambliopia (olho preguiçoso), consequência frequente dos dois anteriores
  • Anisometropia — graus muito diferentes entre os olhos
  • Glaucoma, menos comum, mas possível
  • Descolamento de retina tardio, que pode ocorrer na adolescência ou na vida adulta em olhos que tiveram ROP grave

Por isso, o acompanhamento oftalmológico do ex-prematuro não termina com a alta da triagem. A recomendação prática é avaliação aos 6 meses, 1 ano, e depois anualmente durante a infância — ou conforme orientação do oftalmologista que acompanhou o caso.

Vale um alerta específico: ambliopia só é tratável enquanto o sistema visual está em desenvolvimento. Descobrir aos 8 anos que um olho não enxerga é descobrir tarde demais.


O que os pais podem fazer

Antes da alta da UTI, pergunte diretamente à equipe:

  1. Meu filho já fez o exame de fundo de olho para ROP?
  2. Qual foi o resultado — zona, grau, tem doença plus?
  3. Quando é o próximo exame?
  4. Com quem eu marco esse retorno?

Peça o resultado por escrito. Um relatório com zona, grau e conduta permite que qualquer outro oftalmologista dê continuidade sem recomeçar do zero.

Não falte a nenhum retorno. Este é o ponto mais importante de todo o artigo. A ROP evolui em semanas. Um retorno perdido pode ser a diferença entre uma injeção e uma cirurgia — ou entre enxergar e não enxergar.

Se o bebê foi transferido de hospital, confirme que a informação da triagem foi junto. Perda de seguimento na transferência é uma causa conhecida de diagnóstico tardio.

Não se culpe pelo oxigênio. O oxigênio manteve seu filho vivo. As equipes de neonatologia trabalham hoje com alvos controlados justamente para equilibrar esse risco.


Qual o CID da retinopatia da prematuridade

Na Classificação Internacional de Doenças (CID-10):

  • H35.1 — Retinopatia da prematuridade

Esse é o código usado em relatórios, guias de convênio e registros hospitalares. Nas versões ampliadas há subcódigos que detalham estágio e zona, mas no Brasil o H35.1 é o utilizado na prática.

Vale pedir que ele conste no relatório de alta, junto com a descrição da zona, do grau e da conduta.


Onde fazer: SUS, convênio e particular

Pelo SUS, a triagem de ROP deve ser oferecida nas unidades neonatais que atendem prematuros de risco. A cobertura melhorou muito nas últimas duas décadas, mas ainda é desigual entre regiões. Se o hospital onde seu filho está internado não tem oftalmologista, isso precisa ser comunicado e resolvido — não é aceitável dar alta a um prematuro elegível sem a triagem feita.

Por convênio, o exame e o tratamento estão contemplados. Peça o relatório médico com o CID para evitar entraves.

Se o bebê já teve alta sem o exame, procure um oftalmologista imediatamente. Não espere a consulta de rotina do pediatra.


Nosso trabalho em UTI neonatal

O Instituto Drudi e Almeida realiza triagem de retinopatia da prematuridade em UTI neonatal, com deslocamento da equipe até o hospital, exame sob oftalmoscopia binocular indireta com dilatação pupilar, e emissão de relatório com zona, estágio, presença de doença plus e data do retorno.

O acompanhamento continua após a alta hospitalar, em nossas cinco unidades na Grande São Paulo — Santana, Tatuapé, Lapa, São Miguel Paulista e Guarulhos —, e casos que exigem tratamento contam com a estrutura do MIRA Hospital Oftalmológico.

O serviço de retina é conduzido pelo Dr. Fernando Macei Drudi (CRM-SP 139.300 · RQE 50.645).

📞 (11) 5430-2421 · 💬 WhatsApp (11) 91654-4653

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Perguntas frequentes

A retinopatia da prematuridade causa cegueira?

Pode causar, e é uma das principais causas de cegueira infantil evitável no mundo. Mas a palavra importante é evitável: com triagem no prazo correto e tratamento quando indicado, a grande maioria dos casos é controlada. A cegueira por ROP hoje é, quase sempre, consequência de diagnóstico tardio — não de doença intratável.

A retinopatia da prematuridade tem cura?

Nos graus 1 e 2, a maioria dos casos regride espontaneamente, sem qualquer tratamento, e a criança fica com retina normal. Nos graus mais avançados, o tratamento interrompe a progressão e preserva a visão na maior parte dos casos. Nos graus 4 e 5, quando a retina já descolou, a recuperação é limitada mesmo com cirurgia.

Meu bebê nasceu com 1.800 g e 33 semanas. Precisa do exame?

Pelo critério padrão, não. Mas há uma exceção importante: bebês com curso clínico instável — que precisaram de suporte respiratório prolongado, tiveram sepse, receberam transfusões ou ganharam pouco peso — devem ser examinados mesmo acima dos limites. Converse com o neonatologista.

O exame dói?

Incomoda, e o bebê costuma chorar. Existem medidas comprovadas para reduzir o estresse — sacarose oral, contenção facilitada, sucção não nutritiva — que devem fazer parte da rotina do exame. Peça por elas. O desconforto é passageiro; a triagem não é adiável.

Meu bebê fez o teste do olhinho. Já está examinado?

Não. O teste do olhinho procura catarata congênita, retinoblastoma e opacidades. Ele não detecta retinopatia da prematuridade, que começa na periferia da retina e só aparece com a pupila dilatada, no exame feito por oftalmologista. São exames diferentes e ambos necessários.

Qual a diferença entre grau e estágio?

Nenhuma — são o mesmo conceito. "Grau" é o termo mais usado na conversa com as famílias; "estágio" é o termo da classificação internacional. Ambos vão de 1 a 5.

O que significa "doença plus" no relatório?

Significa que os vasos do centro da retina estão dilatados e tortuosos, sinal de que a doença está ativa. A presença de doença plus muda a conduta: pode transformar um caso de observação em um caso de tratamento em 48 a 72 horas.

O oxigênio da UTI causou a doença?

Não é tão simples. O oxigênio participa do mecanismo, mas é indispensável para manter o bebê vivo. As UTIs trabalham hoje com alvos controlados justamente para equilibrar esse risco. A causa raiz da ROP é a prematuridade em si, que interrompeu a formação dos vasos antes da hora.

Quantas vezes o bebê vai precisar fazer o exame?

Varia muito. Alguns bebês fazem dois ou três exames e recebem alta da triagem. Outros são examinados semanalmente por meses. A frequência é definida pelo achado de cada exame, e a alta acontece por critério anatômico, não por idade.

Meu bebê recebeu injeção no olho. Posso dar alta do acompanhamento?

Não. Bebês tratados com anti-VEGF exigem acompanhamento mais longo, porque a doença pode reativar de 7 a mais de 50 semanas após a injeção. Alta precoce é o principal risco dessa modalidade de tratamento.

O tratamento é laser ou injeção? Qual é melhor?

Os dois funcionam e a escolha é individual. O anti-VEGF preserva a retina periférica, causa menos miopia e é particularmente bom na doença de zona I — mas exige acompanhamento prolongado. O laser tem efeito definitivo e não reativa, mas sacrifica retina periférica e causa mais miopia. A decisão considera a zona, a estrutura disponível e a possibilidade real de acompanhamento.

Meu filho teve ROP que regrediu sozinha. Preciso continuar acompanhando?

Sim. Ex-prematuros, mesmo sem ROP ou com ROP regredida, têm risco aumentado de miopia, estrabismo e ambliopia ao longo da infância. A ambliopia só é tratável enquanto o sistema visual está em desenvolvimento — descobrir tarde significa perder a chance.

Qual o CID da retinopatia da prematuridade?

H35.1 na CID-10. Vale pedir que conste no relatório de alta, junto com zona, grau e conduta.

O que é ROP agressiva?

É uma forma que não segue a progressão clássica de graus 1, 2 e 3 — pode ir direto ao descolamento. Caracteriza-se por vasos muito dilatados e tortuosos com pouca proliferação visível. É a principal razão pela qual a triagem não pode ser espaçada mesmo quando o exame anterior parecia tranquilo.

Existe alguma forma de prevenir?

A prevenção primária é evitar a prematuridade, o que nem sempre é possível. Na UTI, o controle rigoroso dos alvos de oxigênio, a prevenção de infecções e o suporte nutricional adequado reduzem o risco. Mas a medida mais eficaz continua sendo a triagem no prazo correto — que não previne a doença, mas previne a cegueira.


Referências

  1. Chiang MF, Quinn GE, Fielder AR, et al. International Classification of Retinopathy of Prematurity, Third Edition. Ophthalmology. 2021;128(10):e51-e68. doi:10.1016/j.ophtha.2021.05.031

  2. Zin A, Florêncio T, Fortes Filho JB, et al. Proposta de diretrizes brasileiras do exame e tratamento de retinopatia da prematuridade (ROP). Arq Bras Oftalmol. 2007;70(5):875-883. Texto integral

  3. Good WV; Early Treatment for Retinopathy of Prematurity Cooperative Group. Final results of the Early Treatment for Retinopathy of Prematurity (ETROP) randomized trial. Trans Am Ophthalmol Soc. 2004;102:233-248. PMC1280104

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  5. Marlow N, Stahl A, Lepore D, et al. 2-year outcomes of ranibizumab versus laser therapy for the treatment of very low birthweight infants with retinopathy of prematurity (RAINBOW extension study). Lancet Child Adolesc Health. 2021;5(10):698-707. doi:10.1016/S2352-4642(21)00195-4

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Revisão médica. Conteúdo escrito e revisado por Dr. Fernando Macei Drudi, CRM-SP 139.300 · RQE 50.645 — Retina cirúrgica. Revisão adicional por Dra. Priscilla Rodrigues de Almeida, CRM-SP 148.173 · RQE 59.216. Última revisão médica: 7 de agosto de 2026. Consulte nossa Política Editorial.

Aviso importante. Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Se o seu bebê é prematuro e ainda não passou pela triagem de retinopatia da prematuridade, procure atendimento especializado imediatamente.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.

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