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Doença de Refsum: a causa rara de cegueira noturna que a maioria dos médicos não reconhece

Publicado em 07 de abril de 2026 Atualizado em 07 de abril de 2026 12 min de leitura Dr. Fernando Drudi e Dra. Priscilla Almeida
Doença de Refsum: a causa rara de cegueira noturna que a maioria dos médicos não reconhece
Dr. Fernando Drudi e Dra. Priscilla Almeida
Autor
Dr. Fernando Drudi e Dra. Priscilla Almeida
CRM-SP 139.300

Resumo em linguagem simples

A Doença de Refsum é um erro inato do metabolismo que acumula ácido fitânico nos tecidos e destrói a retina silenciosamente. Entenda a fisiopatologia, os sinais oculares, o diagnóstico e o único tratamento capaz de estabilizar a doença.

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Uma doença que leva décadas para ser diagnosticada

Imagine um paciente que chega ao consultório com queixa de dificuldade para enxergar à noite desde os 20 anos. Ao longo dos anos, foi diagnosticado com retinose pigmentar isolada, recebeu suplementação de vitamina A e foi orientado a retornar anualmente. Décadas depois, um painel genético revela algo inesperado: o gene PHYH com duas mutações patogênicas. O diagnóstico real era Doença de Refsum — e a causa da cegueira era, em parte, tratável com uma mudança na alimentação.

Esse cenário não é fictício. Em 2025, pesquisadores da Universidade de Edimburgo relataram o caso de um paciente que levou 40 anos para receber o diagnóstico correto de Doença de Refsum. A demora não é exceção — é a regra. Trata-se de uma das doenças mais subdiagnosticadas da oftalmologia, com prevalência estimada em menos de 1 caso por 10 milhões de habitantes, segundo o NIH.

Na Drudi e Almeida Oftalmologia, o Dr. Fernando Drudi e a Dra. Priscilla Almeida acompanham pacientes com distrofias retinianas hereditárias e conhecem bem o desafio do diagnóstico diferencial nesse grupo. Este artigo reúne o que há de mais atual na literatura científica sobre a Doença de Refsum, com base em publicações do PubMed, NIH StatPearls e IOVS.

O que é a Doença de Refsum?

A Doença de Refsum — também chamada de Síndrome de Refsum ou Doença de Refsum do Adulto — é um erro inato do metabolismo peroxissomal de herança autossômica recessiva. Foi descrita pela primeira vez em 1946 pelo neurologista norueguês Sigvald Refsum, que identificou a tétrade clínica clássica: retinite pigmentosa, neuropatia periférica, ataxia cerebelar e aumento de proteínas no líquido cefalorraquidiano.

A causa molecular foi elucidada décadas depois: uma deficiência na enzima fitanoil-CoA hidroxilase (PhyH), codificada pelo gene PHYH (cromossomo 10p13). Essa enzima catalisa o primeiro passo da α-oxidação peroxissomal do ácido fitânico — um ácido graxo de cadeia ramificada presente exclusivamente em alimentos de origem animal. Uma minoria dos casos é causada por mutações no gene PEX7, que codifica a proteína transportadora da PhyH para dentro dos peroxissomos.

Sem a enzima funcional, o ácido fitânico (ácido 3,7,11,15-tetrametilhexadecanoico) não é metabolizado e acumula-se progressivamente em tecidos adiposos, nervosos, cardíacos e na retina, causando dano celular irreversível.

Por que o ácido fitânico destrói a retina?

O ácido fitânico é um ácido graxo de cadeia ramificada que não pode ser metabolizado pela β-oxidação convencional — necessita da α-oxidação peroxissomal para ser degradado. Em indivíduos saudáveis, essa via funciona normalmente e os níveis plasmáticos de ácido fitânico permanecem abaixo de 0,3% do total de ácidos graxos.

Na Doença de Refsum, o bloqueio metabólico leva ao acúmulo progressivo de ácido fitânico nos tecidos. Na retina, o ácido fitânico se incorpora às membranas dos fotorreceptores e do epitélio pigmentar da retina (EPR), comprometendo a integridade estrutural das células e desencadeando apoptose. O resultado clínico é indistinguível da retinose pigmentar isolada: depósitos de pigmento em espícula óssea, atenuação vascular, palidez do disco óptico e perda progressiva do campo visual.

Um dado importante para a prática clínica: estudos com tomografia de coerência óptica (OCT) em pacientes com Doença de Refsum mostram preservação relativa da zona elipsoide na região macular nas fases iniciais, o que pode ser um sinal de que a intervenção dietética precoce ainda pode preservar a visão central.

Manifestações clínicas: muito além dos olhos

A Doença de Refsum é uma doença sistêmica. Embora as manifestações oculares sejam frequentemente as primeiras a aparecer, o quadro clínico completo envolve múltiplos órgãos e sistemas. O início dos sintomas ocorre tipicamente entre a segunda e a terceira décadas de vida.

SistemaManifestaçãoFrequência
OcularRetinite pigmentosa (cegueira noturna, visão em túnel)100% dos casos
OcularAnosmia (perda do olfato)Muito frequente
OcularCatarata, miose, atrofia de írisFrequente
NeurológicoNeuropatia periférica (fraqueza, parestesias)Muito frequente
NeurológicoAtaxia cerebelar (marcha instável)Frequente
AuditivoSurdez neurossensorialFrequente
CardíacoCardiomiopatia, arritmias (potencialmente fatais)Presente
CutâneoIctiose (pele escamosa)Variável
EsqueléticoEncurtamento de metacarpos e metatarsosVariável

Um dado que merece atenção especial: a anosmia — perda do olfato — é um sinal precoce da Doença de Refsum que frequentemente passa despercebido tanto pelo paciente quanto pelo médico. Em um paciente jovem com cegueira noturna progressiva e perda do olfato, a Doença de Refsum deve sempre ser investigada.

As complicações cardíacas representam o maior risco de mortalidade. A cardiomiopatia e as arritmias associadas ao acúmulo de ácido fitânico no miocárdio podem ser fatais, especialmente em situações de jejum prolongado — que mobiliza os estoques de gordura e libera ácido fitânico acumulado para a circulação, elevando abruptamente os níveis plasmáticos.

Como diagnosticar a Doença de Refsum

O diagnóstico da Doença de Refsum é laboratorial e genético. O exame de referência é a dosagem de ácido fitânico plasmático: valores acima de 200 µmol/L (normal: <10 µmol/L) são altamente sugestivos. No entanto, uma armadilha diagnóstica importante foi descrita em 2024 por Varela et al. no IOVS: pacientes com a variante PHYH:c.678+5G>T podem apresentar ácido fitânico normal ou apenas levemente elevado, configurando uma forma atenuada da doença que pode ser facilmente confundida com retinose pigmentar isolada.

O algoritmo diagnóstico recomendado inclui:

  1. Suspeita clínica: retinose pigmentar + qualquer sinal sistêmico (anosmia, ataxia, neuropatia, surdez)
  2. Dosagem de ácido fitânico plasmático — em jejum de 12 horas
  3. Painel genético de distrofias retinianas (NGS) — inclui os genes PHYH e PEX7
  4. Avaliação oftalmológica completa: ERG, OCT, campo visual, fundoscopia
  5. Avaliação multidisciplinar: neurologia, cardiologia, audiologia

O diagnóstico diferencial mais importante é com a retinose pigmentar isolada — que não tem causa metabólica tratável. Outras condições a considerar incluem a Síndrome de Usher (retinose pigmentar + surdez), a Síndrome de Bardet-Biedl e a Síndrome de Kearns-Sayre.

Tratamento: a dieta que pode mudar o curso da doença

A Doença de Refsum é uma das raras condições em que uma intervenção dietética pode estabilizar ou reverter manifestações neurológicas. O pilar do tratamento é a restrição rigorosa de ácido fitânico na alimentação.

O ácido fitânico é encontrado exclusivamente em alimentos de origem animal — especificamente em ruminantes e peixes gordurosos. Os alimentos a serem eliminados ou drasticamente reduzidos incluem laticínios integrais (manteiga, queijo, leite integral, creme de leite), carnes de ruminantes (boi, carneiro, cabra, veado), peixes gordurosos (atum, salmão, bacalhau, arenque, sardinha, cavala) e algas e produtos derivados.

Uma advertência crítica para a prática clínica: o jejum prolongado e a perda de peso rápida são contraindicados nesses pacientes. A mobilização das reservas de gordura libera o ácido fitânico armazenado no tecido adiposo para a circulação, podendo elevar abruptamente os níveis plasmáticos e precipitar arritmias cardíacas potencialmente fatais. A dieta deve ser hipocalórica de forma gradual e sempre supervisionada por nutricionista experiente.

Em casos com níveis muito elevados de ácido fitânico ou em situações de descompensação aguda, a plasmaférese ou lipidoaférese pode ser utilizada para reduzir rapidamente os níveis plasmáticos.

Quanto às manifestações oculares, a realidade é que a retinite pigmentosa da Doença de Refsum geralmente não regride com o tratamento dietético — mas pode ser estabilizada. Os sintomas neurológicos (neuropatia, ataxia) respondem melhor à restrição dietética, especialmente quando iniciada precocemente.

O futuro: terapia gênica em pesquisa

A terapia gênica para a Doença de Refsum está em fase de pesquisa. A estratégia envolve a entrega de uma cópia funcional do gene PHYH por meio de vetores virais adeno-associados (AAV), com o objetivo de restaurar a atividade da fitanoil-CoA hidroxilase nos tecidos afetados. Embora ainda distante da aplicação clínica, o avanço das terapias gênicas para distrofias retinianas — como o Luxturna para mutações no gene RPE65 — abre perspectivas promissoras para doenças metabólicas peroxissomais como a Doença de Refsum.

Mensagem para o paciente e para o médico

A Doença de Refsum é rara, mas não é invisível. O diagnóstico tardio — frequentemente décadas após o início dos sintomas — representa uma oportunidade perdida de intervenção precoce. Para o oftalmologista, a mensagem é clara: todo paciente com retinose pigmentar e qualquer sinal sistêmico associado (anosmia, ataxia, neuropatia, surdez, ictiose) deve ser investigado para causas metabólicas, incluindo a dosagem de ácido fitânico e o painel genético de distrofias retinianas.

Para o paciente, a mensagem é de esperança cautelosa: diferentemente da maioria das formas de retinose pigmentar, a Doença de Refsum tem uma causa identificável e parcialmente tratável. Com diagnóstico precoce, dieta adequada e acompanhamento multidisciplinar, é possível estabilizar a progressão da doença e preservar a qualidade de vida.

Na Drudi e Almeida Oftalmologia, o Instituto da Retina oferece avaliação especializada para pacientes com distrofias retinianas hereditárias, incluindo eletrorretinograma (ERG), OCT de alta resolução, campo visual computadorizado e aconselhamento genético. Se você ou um familiar apresenta cegueira noturna progressiva, agende uma consulta com nossos especialistas.

Referências científicas

  1. Kumar R, Hodis B, De Jesus O. Refsum Disease. StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024 Apr 20. PMID: 32965824.
  2. Varela MD, et al. PHYH c.678+5G>T Leads to In-Frame Exon Skipping and Is Associated With Attenuated Refsum Disease. Invest Ophthalmol Vis Sci. 2024;65(2):24. doi:10.1167/iovs.23-38808.
  3. Truong P, et al. Forty-year odyssey to Refsum disease diagnosis. Clin Exp Optom. 2025;108(1):45-50. doi:10.1080/08164622.2024.2401509.
  4. Janáky M, et al. Syndromic Retinitis Pigmentosa: A Narrative Review. J Clin Med. 2025;14(1):7. PMC11755594.
  5. Dilated cardiomyopathy revealing Refsum disease: a case report. J Med Case Rep. 2024;18:789. doi:10.1186/s13256-024-04789-5.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.

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