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Coriorretinopatia Serosa Central: Causas, Sintomas e Tratamento Baseado em Evidências

Publicado em 01 de abril de 2025 Atualizado em 01 de abril de 2025 11 min de leitura Dr. Fernando Macei Drudi
Coriorretinopatia Serosa Central: Causas, Sintomas e Tratamento Baseado em Evidências
Dr. Fernando Macei Drudi
Autor
Dr. Fernando Macei Drudi
CRM-SP 139.300

Resumo em linguagem simples

A coriorretinopatia serosa central (CSC) é uma das maculopatias exsudativas mais prevalentes, afetando principalmente homens em idade produtiva. Conheça as causas, sintomas, diagnóstico e os tratamentos mais atualizados baseados em evidências de 2024–2025.

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O que é a Coriorretinopatia Serosa Central?

A coriorretinopatia serosa central (CSC) é uma maculopatia exsudativa caracterizada pelo acúmulo de fluido sub-retiniano (FSR) na região macular, resultante de disfunção do epitélio pigmentado da retina (EPR) sobre uma coroide espessada e hiperpermeável. A doença se manifesta em duas formas clínicas principais, com prognósticos e abordagens terapêuticas distintas.

A forma aguda tem duração inferior a três a quatro meses e, em aproximadamente 80% dos casos, resolve-se espontaneamente sem necessidade de intervenção. A forma crônica, com fluido persistindo além de três a quatro meses, pode levar à atrofia progressiva do EPR e dos fotorreceptores, resultando em comprometimento visual permanente se não tratada adequadamente.

Fisiopatologia: A Coroide como Epicentro da Doença

Durante décadas, a CSC foi considerada primariamente uma doença do EPR. A compreensão atual, sustentada por evidências de imagem multimodal de alta resolução, posiciona a coroide como o epicentro fisiopatológico da condição. A CSC é hoje reconhecida como parte do espectro das doenças pacicoroides — grupo de condições caracterizadas por espessamento e dilatação dos vasos coroidais externos (vasos de Haller).

O mecanismo proposto envolve uma cascata de eventos: a disfunção da regulação do fluxo sanguíneo coroidal leva à isquemia ao nível da coriocapilar, resultando em disfunção focal ou difusa do EPR com acúmulo subsequente de fluido sub-retiniano. O papel dos mineralocorticoides nesse processo é central: receptores mineralocorticoides expressos nas células do EPR e nos vasos coroidais, quando ativados pelo cortisol ou aldosterona, promovem vasoconstrição e aumento da permeabilidade vascular — explicando a associação da CSC com estresse psicológico e uso de corticosteroides.

Fatores de Risco: Quem Está Mais Vulnerável?

A CSC afeta predominantemente homens entre 30 e 50 anos, com uma razão masculino:feminino de aproximadamente 6:1. Metanálise publicada em 2025 confirmou que o sexo masculino é fator de risco independente (odds ratio 2,73; P < 0,0001), e que homens são, em média, 3,3 anos mais jovens que mulheres no momento do diagnóstico.

Os principais fatores de risco identificados na literatura incluem:

  • Uso de corticosteroides (qualquer via) — oral, inalatória, tópica, intra-articular ou colírios — pode precipitar ou agravar a CSC por ativação de receptores mineralocorticoides na coroide
  • Hipertensão arterial sistêmica — aumenta a pressão de perfusão coroidal
  • Tabagismo — promove vasoconstrição e estresse oxidativo
  • Personalidade tipo A e estresse psicológico — elevam os níveis endógenos de cortisol
  • Apneia obstrutiva do sono — hipóxia intermitente e disregulação autonômica
  • Infecção por Helicobacter pylori — associação emergente via inflamação sistêmica

Sintomas: Como a CSC se Manifesta?

A apresentação clínica da CSC é variável. Alguns pacientes são assintomáticos, com o diagnóstico feito incidentalmente durante exame de rotina. Quando o fluido sub-retiniano compromete a fóvea central, os sintomas típicos incluem:

  • Visão turva ou embaçada no centro do campo visual, frequentemente descrita como "névoa" ou "mancha" central
  • Metamorfopsia — distorção das imagens, com linhas retas percebidas como curvas ou onduladas, detectável pela grade de Amsler
  • Micropsia — percepção de objetos menores do que o real, resultante do afastamento dos fotorreceptores pelo fluido sub-retiniano
  • Escotoma central relativo — área de visão reduzida no centro do campo visual
  • Alteração da percepção de cores e redução do contraste

É importante ressaltar que a acuidade visual medida pelo optotipo pode não refletir adequadamente o impacto funcional da doença. Muitos pacientes com acuidade de 20/20 relatam dificuldade significativa em tarefas que exigem visão de contraste e discriminação de detalhes finos, como leitura prolongada ou trabalho com telas.

Diagnóstico: Exames Essenciais

O diagnóstico da CSC é fundamentalmente clínico e de imagem. A avaliação completa deve incluir:

Tomografia de Coerência Óptica (OCT) é o exame de referência para diagnóstico e monitoramento. Permite visualizar o fluido sub-retiniano, os descolamentos do EPR, a espessura coroidal (EDI-OCT) e as alterações dos fotorreceptores. A presença de coroide espessada (acima de 300 µm) é achado característico da CSC dentro do espectro pacicoroides.

Angiografia com Fluoresceína (AF) demonstra o ponto de vazamento ativo do EPR, classicamente em "fumaça de chaminé" (smoke-stack) ou em "tinta expansiva" (inkblot). Embora menos específica que a ICGA para avaliar a coroide, a AF é útil para identificar o local exato do vazamento e guiar tratamentos com laser.

Angiografia com Verde de Indocianina (ICGA) é o exame mais sensível para avaliar a hiperpermeabilidade coroidal, demonstrando hiperfluorescência difusa nas fases tardias, dilatação dos vasos coroidais e áreas de hipoperfusão da coriocapilar. É fundamental para o planejamento da terapia fotodinâmica.

OCT-Angiografia (OCT-A) permite a visualização não invasiva da vasculatura coroidal e a detecção de neovascularização coroidal (NVC), uma complicação da CSC crônica que altera substancialmente o prognóstico e o tratamento.

Tratamento: Evidências Atualizadas de 2024–2025

O tratamento da CSC evoluiu consideravelmente nos últimos anos, com publicação de ensaios clínicos randomizados de alta qualidade. A Academia Americana de Oftalmologia publicou em 2025 uma revisão sistemática abrangente, avaliando 31 estudos selecionados de 612 referências, com seis estudos de nível I de evidência.

CSC Aguda: Observação e Tratamento Seletivo

Na CSC aguda, a conduta inicial recomendada é a observação por 3 a 4 meses, dado que a maioria dos casos resolve espontaneamente. Durante esse período, devem ser identificados e eliminados fatores precipitantes, especialmente o uso de corticosteroides.

Um estudo de nível I demonstrou que a terapia fotodinâmica com meia dose de verteporfirina (PDT meia dose) para CSC aguda resultou em redução significativa do fluido sub-retiniano, com 95% dos olhos tratados sem FSR aos 12 meses, comparado a 58% dos olhos não tratados (P = 0,001). Em casos selecionados — como pacientes com necessidade visual profissional urgente ou risco elevado de cronicização — o tratamento precoce pode ser considerado.

CSC Crônica: PDT com Meia Dose como Padrão Ouro

Para a CSC crônica, a terapia fotodinâmica com meia dose de verteporfirina (PDT 3 mg/m²) é o tratamento com maior nível de evidência e é considerada o padrão ouro pela maioria dos consensos internacionais. O mecanismo de ação envolve a oclusão seletiva dos vasos coroidais hiperpermeáveis, reduzindo a congestão venosa e a pressão hidrostática sobre o EPR.

Um ensaio clínico randomizado de nível I comparou PDT com meia dose versus PDT com 30% da dose, demonstrando que 94,6% dos olhos no grupo meia dose não apresentavam FSR aos 12 meses, comparado a 75,4% no grupo 30% da dose (P = 0,004), confirmando a superioridade da meia dose. O ensaio PLACE também demonstrou superioridade da PDT meia dose sobre o laser micropulsado de alta densidade para CSC crônica.

Antagonistas Mineralocorticoides: Evidências Controversas

O uso de antagonistas dos receptores mineralocorticoides (ARM) — eplerenona e espironolactona — foi investigado com base na hipótese de que a ativação mineralocorticoide contribui para a hiperpermeabilidade coroidal na CSC. O ensaio clínico randomizado VICI trial, de nível I, avaliou a eplerenona versus placebo para CSC crônica e não demonstrou benefício significativo: a acuidade visual aos 12 meses foi de 79,5 letras no grupo placebo e 80,4 letras no grupo eplerenona (P = 0,24). O ensaio SPECTRA confirmou que a PDT meia dose supera a eplerenona oral tanto em eficácia quanto em segurança para CSC crônica.

CSC com Neovascularização Coroidal

Um subgrupo de pacientes com CSC crônica desenvolve neovascularização coroidal (NVC) — crescimento de novos vasos anômalos sob a retina — que altera substancialmente o prognóstico. Nesses casos, o tratamento com injeções intravítreas de agentes anti-VEGF é indicado, frequentemente em combinação com PDT. A OCT-Angiografia é fundamental para o diagnóstico precoce da NVC na CSC.

Prognóstico e Seguimento a Longo Prazo

O prognóstico da CSC aguda é geralmente favorável, com recuperação visual completa na maioria dos casos. Entretanto, estudos de seguimento a longo prazo revelam que até 40–50% dos pacientes apresentam recorrências. A CSC crônica não tratada associa-se a risco significativo de perda visual permanente por atrofia do EPR e dos fotorreceptores. Dados de seguimento de 10 anos demonstram que pacientes com CSC crônica tratada com PDT apresentam melhor preservação da acuidade visual e menor progressão da atrofia do EPR comparados aos não tratados.

O seguimento regular com OCT é recomendado para todos os pacientes, independentemente da forma clínica, para detecção precoce de recorrências, progressão para CSC crônica e desenvolvimento de NVC.

Quando Procurar um Especialista em Retina?

Qualquer paciente que apresente visão turva central de início recente, metamorfopsia ou percepção de objetos menores deve ser avaliado por um oftalmologista com brevidade. Situações que requerem avaliação urgente incluem: redução visual significativa (acuidade abaixo de 20/40), suspeita de CSC bilateral, presença de descolamento exsudativo extenso, pacientes em uso de corticosteroides sistêmicos e casos com duração superior a 3 meses sem resolução espontânea.

O Instituto da Retina da Drudi e Almeida conta com tecnologia de OCT de última geração, OCT-Angiografia e terapia fotodinâmica para diagnóstico e tratamento completo da coriorretinopatia serosa central, com equipe especializada e experiência em casos complexos.

Perguntas Frequentes sobre Coriorretinopatia Serosa Central

A CSC pode causar cegueira?

A CSC aguda raramente causa perda visual permanente grave. A forma crônica não tratada, contudo, pode resultar em comprometimento visual significativo por atrofia da mácula. O diagnóstico e tratamento precoces são fundamentais para preservar a visão.

O estresse causa CSC?

O estresse psicológico é um fator de risco reconhecido, provavelmente por elevar os níveis endógenos de cortisol, que ativa receptores mineralocorticoides na coroide. Pacientes com personalidade tipo A e alta exposição ao estresse têm maior risco de desenvolver e recidivar a CSC.

Posso usar corticosteroides se tenho CSC?

O uso de corticosteroides deve ser evitado ou minimizado em pacientes com CSC, pois pode precipitar ou agravar a doença. Qualquer necessidade de corticoterapia deve ser discutida com o oftalmologista e o médico prescritor para avaliar alternativas terapêuticas.

A CSC afeta os dois olhos?

O envolvimento bilateral simultâneo ocorre em cerca de 4% dos casos no momento do diagnóstico. Ao longo da vida, até 40% dos pacientes podem apresentar envolvimento do olho contralateral.

Quanto tempo dura o tratamento com PDT?

A terapia fotodinâmica é realizada em sessão única ambulatorial, com duração de aproximadamente 30 minutos. A maioria dos pacientes necessita de apenas uma sessão, embora casos refratários possam requerer retratamento após 3 meses.

Referências Científicas

  1. Kim LA, Maguire MG, Weng CY, et al. Therapies for Central Serous Chorioretinopathy: A Report by the American Academy of Ophthalmology. Ophthalmology. 2025;132(1).
  2. Feenstra HMA, van Dijk EHC, Cheung CMG, et al. Central serous chorioretinopathy: an evidence-based treatment guideline. Progress in Retinal and Eye Research. 2024;101:101236.
  3. Frederiksen IN, et al. Global incidence of central serous chorioretinopathy: a systematic review, meta-analysis, and forecasting study. Ophthalmology and Therapy. 2025.
  4. Kim YJ, et al. Treatment of central serous chorioretinopathy: new options for an old disease. Eye. 2025.
  5. Chatziralli I, et al. Eplerenone for Central Serous Chorioretinopathy (VICI Trial). Biomedicines. 2026.

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, baseado em literatura científica revisada por pares. Não substitui a consulta médica presencial. Em caso de sintomas visuais, procure imediatamente um oftalmologista especializado.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico oftalmologista. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde ocular, procure atendimento médico especializado.

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